quarta-feira, 22 jul. 2026

Um país atascado  

A pergunta que permanece é esta: está o país a avançar em alguma direção? Está alguma coisa de estrutural a mudar no Estado? Na economia? Não está.

Nas últimas semanas, tivemos vários sinais do bloqueio em que o país se encontra. Política, económica e socialmente. Não é de agora, mas, enquanto a economia foi crescendo e os cofres do Estado estavam forrados de dinheiro, pudemos dar-nos ao luxo de andar em eleições de seis em seis meses e a brincar à política. Como se os eleitores fossem apenas figurantes de uma novela onde os atores políticos se digladiam pelo papel principal. 

O atual quadro parlamentar é o que é. Desde logo, uma prova evidente da desconfiança crescente do eleitorado em relação aos dois partidos do regime e de um sentimento de revolta que vai crescendo a cada ato eleitoral. Mas o bloqueio político é evidente. Se, à direita, o Governo tem um partido em que não pode confiar, à esquerda tem outro com uma profunda crise de identidade. O ‘não é não’ transformou-se num slogan vazio, mas o ‘não é sim’ também já não garante nada. 

Nos últimos dois anos, Luís Montenegro foi gerindo o calendário eleitoral. Distribuiu dinheiro por tudo o que era corporação, fez baixas de impostos mixurucas como se fossem grandes reformas fiscais e foi oferecendo complementos de reforma cirúrgicos, sempre a pensar na eleição seguinte. Sempre a sonhar com uma maioria absoluta que os eleitores fizeram sempre questão de lhe negar. E agora? Agora que o dinheiro está a acabar e a despesa pública a subir de forma consistente? Agora que os grandes anúncios de obras públicas que vinham de trás acabaram? E agora que não há mais dinheiro para distribuir e o custo de vida continua a aumentar? 

Houve duas notícias que passaram ligeiramente despercebidas nos últimos dias. A primeira surgiu pela boca do próprio ministro das Finanças, quando afirmou que o Governo tem «o compromisso de continuar a descer o IRS», mas que é melhor esperar para ver «como vão evoluir a economia e as contas públicas nos próximos meses» e que só depois serão tomadas decisões.

A segunda notícia, o Governo decidiu escondê-la no relatório do Fundo Monetário Internacional. O ‘bónus’ fiscal que o executivo deu aos contribuintes nos últimos dois anos, em setembro e outubro, retendo menos imposto e, consequentemente, deixando mais dinheiro disponível nos bolsos dos contribuintes, este ano não vai existir.

O Governo está a tirar o pé do acelerador e tem bons motivos para isso. As contas de 2026 já estavam altamente pressionadas pelos empréstimos do PRR e ficaram ainda mais complicadas com a tempestade Kristin, que o executivo estima que tenha custado aos cofres do Estado perto de dois mil milhões de euros. Só aqui, na tempestade, esgotou-se o superávit de 2025, e o ministro das Finanças já admite que 2026 pode terminar com um pequeno défice.

Estará o diabo ao virar da esquina, como anda a sugerir Mário Centeno? Não necessariamente. Pelo menos, para já. Apesar dos constrangimentos, o Governo parece estar a seguir a mesma estratégia dos anos anteriores: baixar as expectativas para depois aparecer triunfalista, tendo sido capaz de contrariar todas as previsões – incluindo as do próprio Governo. Não me espantaria que o Orçamento para 2027 trouxesse uma nova descida do IRS, por pequena que seja, só para não estragar a narrativa oficial do executivo. E, já agora, para prevenir um cenário de legislativas antecipadas no próximo ano. 

Mas a pergunta que permanece é esta: está o país a avançar em alguma direção? Está alguma coisa de estrutural a mudar no Estado? Na economia? Não está. E a novela da reforma laboral é paradigmática desse impasse. Quase um ano a debater uma proposta de reforma, mal amanhada e mal comunicada, duas greves gerais e dois chumbos: um na Concertação Social e outro no Parlamento. 

O que me leva aos outros dois responsáveis pelo atascamento do país: o PS e o Chega. André Ventura percebeu há muito que no dia em que deixar de ser o representante do protesto, morre politicamente. Por isso, dele, só os ingénuos ou os facciosos podem esperar alguma responsabilidade e confiabilidade. Ventura não está na política para melhorar o país, nem a vida das pessoas. O líder do Chega corre em pista própria, e tudo o resto é instrumental. O partido, o país e os eleitores. 

Mas do PS, legitimamente, espera-se mais. Eu sei que José Luís Carneiro anda embevecido com as sondagens que dão o PS à frente, mas engana-se o secretário-geral socialista se entende estas sondagens como uma validação do seu desempenho. Elas dizem mais sobre a fraca prestação do Governo do que sobre a prestação do Partido Socialista. 

Até agora, o PS falhou a grande promessa que fez ao país, depois de uma das maiores derrotas eleitorais da sua história. Não refletiu sobre as causas dessa derrota, não se renovou e não conseguiu apresentar-se com uma proposta política nova e inspiradora. O mais recente grupo de trabalho criado por José Luís Carneiro para fazer o programa económico do Partido Socialista é disso um bom exemplo. A mescla de rostos do passado com outros que vêm da sociedade civil não disfarça a substância da proposta que se pretende apresentar: o mesmo programa, as mesmas soluções, o mesmo caminho que foi percorrido durante os oito anos da governação de António Costa. A insistência no IVA zero – criticada, aliás, por Mário Centeno – é bem a prova de que o PS ficou no passado e não tem nada de novo para dizer ao país.

E, assim, cá estamos neste marasmo, onde nada de novo surge no horizonte e nada de concreto está a ser feito para mudar estruturalmente o país. Enquanto os dois maiores partidos da oposição vão fazendo cálculos sobre qual a melhor altura para derrubar o Governo, o PSD vai-se preparando para esse dia, para ver se à terceira é de vez e os eleitores lhe dão a tal maioria maior. A brincar, a brincar, quando dermos por ela, passaram-se três anos e ou estamos no mesmo sítio, ou andámos para trás. Somem aos oito anos anteriores, e será mais de uma década perdida.