Em janeiro de 2015, visitei José Sócrates na cadeia de Évora para lhe fazer uma entrevista para a SIC. Numa sala fria, impessoal, onde estavam outros reclusos, o ex-primeiro-ministro não apareceu maquilhado, nem de fato e gravata, mas a agressividade do discurso era a mesma com que me tinha habituado a conviver nos muitos anos em que acompanhei o seu percurso político.
A mera pergunta ‘reconhece que cometeu algum destes crimes?’ era-lhe intolerável. Como ousa alguém questionar a sua inocência? Claro - garantia - que não cometeu nenhum crime. Todo o processo da Operação Marquês era uma enorme conspiração política para o derrubar. Uma cabala, uma armadilha que tinha cúmplices espalhados por todo o lado: nos seus adversários políticos, mas também no seu próprio partido. O Ministério Público era apenas a mão visível dos que o queriam impedir de se candidatar à Presidência da República.
Nos últimos 13 anos, Sócrates foi alimentando esta narrativa. Para si mesmo e para quem o quisesse ouvir. «Não ficará pedra sobre pedra deste processo», repetiu ad nauseam, em artigos de opinião, entrevistas, comunicados, em todos os fóruns para onde era convidado e para os quais se fez muitas vezes convidado.
Até à fase de instrução do processo, José Sócrates parecia determinado em provar a sua inocência. Em desmontar a acusação do Ministério Público, apresentando as suas provas, as suas testemunhas, fazendo aquilo a que qualquer arguido tem direito. Com a ajuda dos advogados João Araújo e Pedro Delille, apresentou todos os recursos e incidentes processuais que estavam ao seu dispor, usou e abusou das garantias previstas na lei, viu-lhe serem aplicadas multas e penalizações, mas nada o travava.
A instrução não correu exatamente como estaria à espera - desde logo, porque não o inocentou totalmente -, mas fez cair muitos dos crimes de que estava acusado. O suficiente para Sócrates cantar vitória. O problema é que, como os recursos para tribunais superiores não são uma prerrogativa apenas das defesas, o Ministério Público recorreu para o Tribunal da Relação e os juízes desembargadores recuperaram grande parte da acusação inicial, ordenando que Sócrates fosse mesmo julgado por 22 crimes.
A partir daqui, a estratégia do ex-primeiro-ministro mudou. Todo o esforço que tinha feito para evitar ir a julgamento caiu por terra e, por isso, era preciso encontrar uma qualquer forma de fuga para evitar a decisão do tribunal. O próprio já disse, incontáveis vezes, que o seu julgamento já foi feito na fase de instrução.
A primeira estratégia, já com o julgamento a decorrer, foi a de guerrilha permanente com a juíza Susana Seca. Por parte de José Sócrates e do seu indefetível advogado Pedro Delille. A defesa testou todos os limites. Desrespeitou o tribunal, a juíza, os restantes arguidos, valeu tudo para condicionar a justiça e procurar atrasar o julgamento.
Mas Sócrates não encontrou uma juíza mansa. Longe disso. Na sua infinita paciência, a cada sessão, Susana Seca foi assegurando, como podia, a continuação do julgamento - e isso era intolerável para o antigo governante.
É aqui que entra em marcha uma nova estratégia. Pedro Delille abandona a defesa de José Sócrates em novembro de 2025, com a esfarrapada desculpa dos «motivos deontológicos e de consciência profissional». É nomeado um advogado oficioso, mas Sócrates recusa-o e escolhe José Preto, que entra com um pedido de cinco meses e meio para consultar o processo. O tribunal dá-lhe 10 dias. Entretanto, José Preto adoece, mete-se o Natal e o Ano Novo, e o julgamento permanece parado mais dois meses. Em janeiro, já com a paciência a esgotar-se, o tribunal volta a nomear um advogado oficioso. José Preto renuncia e o novo advogado oficioso também. Sócrates escolhe uma advogada de Coimbra, que já tinha ajudado na sua defesa, mas a estratégia é a mesma do anterior: pedir cinco meses para se inteirar do processo, ver o pedido recusado e renunciar.
As semanas foram passando, os advogados foram-se sucedendo, e o julgamento foi ficando em banho-maria. Nas contas de Luís Rosa, no Observador, estas manobras da defesa de Sócrates já lhe renderam três meses de atraso e 35 sessões por realizar. O que significa que, a continuar assim, em junho deste ano começam a cair os primeiros crimes - um deles por corrupção. Porquê? Porque prescrevem.
Há muitas formas de fugir à justiça. Pode-se apanhar um avião e desaparecer para um país que não tenha acordos de extradição. Passar a fronteira de carro, mudar de identidade e começar uma nova vida num sítio novo. E depois há José Sócrates, a quem, estou convencido, nunca passou pela cabeça fazer nenhuma destas coisas.
Fugir do país, esconder-se, desaparecer, não é compatível com a sua personalidade. Afinal, ele é o ‘animal feroz’, o ‘menino de ouro do PS’, o primeiro a conquistar uma maioria absoluta para o Partido Socialista. Não. Sócrates não se pode dar a esse ‘luxo’. Fugir é para os cobardes. E se há coisa que José Sócrates não se considera é ‘cobarde’. Mas como podemos nós qualificar alguém que atua como um foragido para tentar evitar o julgamento onde tem a oportunidade de provar a sua inocência? ‘Corajoso’ não é, seguramente.