Esta campanha presidencial é, toda ela, um paradoxo. Há 40 anos que não tínhamos umas eleições tão disputadas e, no entanto, nenhum dos candidatos é particularmente entusiasmante. A eleição é para a Presidência da República, mas os candidatos são instados permanentemente a dizer o que fariam se fossem primeiros-ministros. Com a esquerda e a direita divididas, o único candidato que vinha de fora do sistema não conseguiu passar à segunda volta. E agora que chegámos à segunda volta, temos de escolher entre um candidato que quer ser Presidente e outro que quer ser primeiro-ministro.
Centremo-nos, então, no único candidato que quer muito, muito, muito ir para o Palácio de Belém. António José Seguro andou uma vida a preparar-se para chegar ao topo da hierarquia do Estado. E fez quase tudo bem. Começou por baixo, foi líder da Juventude Socialista, teve uma curta passagem pelo Governo, foi deputado, esteve ao lado dos líderes do PS quando tinha de estar, mas também soube afastar-se quando entendeu que a sua hora estava próxima.
E Seguro esteve perto, muito perto do cume, mas a oportunidade não podia ter surgido em pior altura. José Sócrates, de quem se vinha distanciando há algum tempo, caiu com a bancarrota do país e esse foi o momento do tudo ou nada. António José Seguro tomava conta de um Partido Socialista que acabara de ser julgado nas urnas por ter atirado o país para a falência e via a direita chegar ao poder com uma maioria parlamentar que tinha a troika como guarda costas e um Presidente da República do PSD como árbitro. Nada naquela tarefa era fácil.
Dizer-se que Seguro era um líder da oposição frágil era, no mínimo, um eufemismo. A ele exigia-se que fizesse oposição e fosse, ao mesmo tempo, parceiro do Governo. Às segundas, quartas e sextas, Passos Coelho e Paulo Portas lembravam-lhe que tinha sido o PS a negociar o programa de assistência financeira. Às terças, quintas e sábados, os críticos internos do PS acusavam-no de não saber fazer oposição ao Governo. António José Seguro vivia numa camisa de forças.
Longe de ter a garra e a combatividade de José Sócrates, ou a intuição e o instinto político de Mário Soares, esforçava-se, sobretudo, por passar uma imagem de credibilidade, de alguém em quem o país poderia confiar, de estadista. Para fora, à frente das câmaras, sobretudo, Seguro era o político que colocava o país à frente do partido. Mas, nos bastidores, sabia ser letal com os críticos internos. Rodeou-se de gente que conhecia bem o aparelho do PS – entre os quais, José Luís Carneiro – e conseguiu, durante algum tempo, travar as várias tentativas de golpes palacianos de que ia sendo alvo.
Na comunicação, António José Seguro também não brincava em serviço. Ao contrário de Sócrates, que era tão colérico com a câmara ligada como desligada, Seguro punha aquele ar angelical, simultaneamente grave e sério, mas também empático com as perguntas dos jornalistas. Quando os microfones se desligavam, a conversa já era outra.
Com António José Seguro, não há grande margem para a espontaneidade. Tudo é pensado, planeado, construído. Tudo é tático. O que lhe falta em carisma, ele compensa com estratégia. É falso que não tenha killer instinct, como se comprovou nos debates com António Costa, durante as primárias do PS. Seguro só opta por usar poucas vezes essa arma, porque isso destrói a imagem que ele anda há décadas a construir, de um político elevado, que coloca o país acima das guerras político-partidárias. Creio, até, que seja falsa a ideia de que Seguro só sabe ter discursos redondos, de quem não tem ideias sobre nada. Também isso faz parte da estratégia: falar muito sem dizer nada prejudica menos do que falar muito e dizer o que realmente se pensa.
Foi assim que António José Seguro chegou a esta segunda volta e é assim que, provavelmente, vai conseguir ser eleito Presidente da República. O debate desta semana com André Ventura foi mais um ótimo exemplo. Perante um adversário difícil, Seguro transformou-se numa espécie de busto da República, que só diz frases consensuais, que não geram polémica. Com isso, deixou Ventura, várias vezes, a espernear sozinho. Mas também mostrou que sabe ser populista, quando disse que tinha abdicado de 300 mil euros da subvenção de deputado, ou quando se virou para o adversário e lhe disse que, enquanto Ventura era pago para falar, Seguro estava a trabalhar.
António José Seguro é aquilo a que no futebol se chama ‘o falso lento’. Pode não ser exatamente o que o país espera ter em Belém, mas é isto que está prestes a contratar’.