Depois de uma das maiores derrotas eleitorais da sua história, que atirou o partido para terceira força política com assento na Assembleia da República, o Partido Socialista parece decidido a continuar a escavar o buraco onde se encontra. Não há nada a fazer. É mais forte do que eles.
Pedro Nuno Santos regressou ao Parlamento, com estrondo e, claramente, mal resolvido. Tem contas para ajustar. Com Luís Montenegro, com António Costa, com José Luís Carneiro e com todos os camaradas de partido que possam um dia sequer sonhar em candidatar-se à liderança do PS. Esses ‘taticistas’ que se escondem atrás da porta e que fogem ao combate. Como ousam? Querem suceder a José Luís Carneiro quando a oportunidade surgir e candidatar-se a primeiro-ministro? Desenganem-se, que esse papel é de Pedro Nuno, estava escrito nas estrelas e não há derrota eleitoral, por mais humilhante que seja, que consiga apagar esse desígnio.
Com uma autoestima assinalável, Pedro Nuno Santos chamou os jornalistas no dia em que regressou à Assembleia da República para dizer ao país ao que vem. Combater um Governo «de gente pouco séria», a mesma estratégia que usou nas últimas legislativas – e que, claramente, não deu bom resultado. Culpa dele? Não, de todo. Culpa de António Costa, pois claro, que tinha um chefe de gabinete a quem a Judiciária encontrou 75 mil euros escondidos em envelopes e caixas de vinho, na residência oficial do primeiro-ministro.
Na rentrée revanchista de Pedro Nuno Santos, só se safaram os eleitores – os únicos, afinal, que podiam ser considerados responsáveis por ele não ser hoje líder do Governo. Porque nem José Luís Carneiro se safou. Pedro Nuno veio para ajudar a combater o Governo, mas fica claro que não está disponível para seguir a estratégia de quem manda agora no partido. Não concorda com a estratégia centrista de Carneiro e, por isso, parece disposto a fazer oposição em pista própria. Afinal, ele é um social-democrata de esquerda e a ‘geringonça’ ainda há-de ser grande outra vez.
Depois da hecatombe nas últimas legislativas, no PS pediu-se uma reflexão profunda. Era preciso compreender o que teria provocado o êxodo de eleitores, repensar as políticas, aproximá-las das reais necessidades do país. Palavras bonitas, mas inconsequentes.
José Luís Carneiro pôs-se na frente da fila para chegar ao cargo de sonho, e os outros ficaram quietos, que o líder seguinte era para arder em lume brando. A derrota nas autárquicas era mais do que previsível e, à época, ninguém dava nada por António José Seguro. Para quê estarem a queimar-se?
A reflexão interna no PS, que ficou prometida para depois das presidenciais, não passou disso mesmo, de uma promessa. E Carneiro lá foi prosseguindo com a sua personalidade, a que vagamente podemos chamar de estratégia. Para fora, faz uma espécie de oposição agridoce, ora muito disponível para chegar a acordo com o Governo, ora contra toda e qualquer mudança que signifique romper com as políticas da governação de António Costa. Para dentro, quer agradar a gregos e a troianos, achando talvez que, com isso, alarga o seu prazo de validade.
E este é, provavelmente, o maior problema do Partido Socialista atual, o de procurar resultados diferentes com as mesmas pessoas e com as mesmas ideias que foram responsáveis pela situação atual do partido: um Estado que toma conta de tudo, uma economia sobrecarregada de burocracia e impostos e uma política de redistribuição assente em clientelas eleitorais. As escolhas de José Luís Carneiro no último congresso – e, sobretudo, as recusas que recebeu – são um sinal evidente de que esta estratégia dificilmente será bem sucedida.
O cerco a José Luís Carneiro já começou. E talvez isso explique este regresso de Pedro Nuno Santos com tamanha agressividade e críticas aos taticistas. Entre os que estão dentro – como Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina e Alexandra Leitão – e os que estão fora – como Duarte Cordeiro, Ana Catarina Mendes ou Mário Centeno –, o cerco vai começar a apertar-se. E Pedro Nuno Santos, claramente, não quis ficar de fora. O PS não aprende, mesmo.