O abandalhar do regime

Este abandalhar do regime não começou este verão e está longe de ser um exclusivo do PSD de Luís Montenegro. Nos últimos anos, coisas que considerávamos impensáveis foram acontecendo à frente dos nossos olhos.

Um ministro demora 20 dias para explicar as suspeitas que recaem sobre ele. Nesses 20 dias, é escrita e dita muita coisa. Nem tudo correto. Nem tudo errado. Um primeiro-ministro, durante esses 20 dias, decide dar respaldo para que se ignorem as perguntas dos jornalistas e o escrutínio dos partidos da oposição. Consta que se trata de uma estratégia de comunicação – genial, seguramente: esperar que a onda passe, que outras notícias ocupem o espaço mediático, e, com jeitinho, pode ser que o país se esqueça de Luís Neves.

A arrogância do poder é, de facto, um bulldozer. Passa por cima da ética, da moral e, se for preciso, da lei. O escrutínio é muito bonito, mas só quando se aplica aos outros. O PSD na oposição defende standards de ética na política, questiona, escrutina, exige explicações e consequências. O PSD no Governo entra em modo de autopreservação do seu poder. Foi assim com a Spinumviva. Volta a ser assim com Luís Neves. Será sempre assim, as vezes que forem precisas. Que se lixem as instituições, os jornalistas e os eleitores. Quando chegarmos às eleições, já ninguém se lembra disto.

Este abandalhar do regime não começou este verão e está longe de ser um exclusivo do PSD de Luís Montenegro. Nos últimos anos, coisas que considerávamos impensáveis foram acontecendo à frente dos nossos olhos. A descoberta de armas roubadas de paióis militares que não passou de uma encenação. Um chefe de gabinete do primeiro-ministro que tem 75 mil euros em notas na residência oficial. Um partido político que coloca tarjas nas janelas da Assembleia da República, como se a casa da democracia lhe pertencesse. Ou um deputado da Nação que rouba malas no aeroporto e as esconde no Parlamento. A ficção já ultrapassou demasiadas vezes a realidade na política portuguesa. Tantas, que já desconfiamos de tudo.

É isso que explica que, no caso do vandalismo no gabinete de André Ventura na Assembleia da República, sejamos obrigados a colocar um ‘alegadamente’ antes de cada frase. Porque este é o mesmo partido – e o mesmo André Ventura – que se fez filmar a fingir que estava a apagar um fogacho durante a época de incêndios. Que usou a Inteligência Artificial para parecer que andava debaixo de chuva a distribuir água às vítimas das tempestades. Ou que andou a bater às portas dos outros grupos parlamentares num dia em que não havia trabalhos na Assembleia, para induzir nos eleitores a ideia de que os deputados dos outros partidos não trabalham. Por isso, sim. Até a Polícia Judiciária nos dizer o que se passou esta semana no Parlamento, eu continuarei a usar o ‘alegadamente’ para me referir ao episódio do vandalismo no gabinete do líder do Chega. A bem do regime, acho que prefiro que alguém tenha invadido o gabinete de Ventura. Se foi mesmo assim, é muito grave. Mas, se se tratou de uma encenação, a gravidade não é menor.

Neste movimento de abandalhamento do regime em curso, o jornalismo também não sai, exatamente, incólume. «Jornalismo é publicar aquilo que outros não querem que seja publicado. Tudo o resto é propaganda». Não é claro que a frase seja mesmo de George Orwell, escritor, jornalista e ensaísta britânico do século XX, mas é, fundamentalmente, verdadeira. No caso de Luís Neves, como em muitos outros em mais de 50 anos de democracia, o jornalismo tem cumprido este papel: de denúncia, de escrutínio e, muitas vezes, de confronto com o poder. É assim que tem de ser.

Mas o jornalismo tem regras, e é isso que o distingue de tudo o resto. E uma das regras – muitas vezes ignorada – é a de que, partindo do pressuposto de que não há fontes desinteressadas, o papel do jornalista é questionar, enquadrar, procurar respostas, antes de publicar acriticamente o que uma fonte lhe diz. O pior que pode acontecer à credibilidade de um jornalista é deixar-se instrumentalizar pelas suas fontes. Outra das regras, muito importante, é a de que o jornalista não é nunca o foco da notícia. E nem sempre isso acontece. Não raras vezes, alguns jornalistas gostam de puxar para si o holofote, pôr-se em bicos dos pés e gritar por atenção. Como se mais importante do que a notícia fosse o jornalista que a fez.

A reflexão sobre o que estamos a fazer ao nosso regime não cabe nesta coluna, mas precisa, urgentemente, de ser feita. Na era das redes sociais, a democratização da opinião está a transformar-se num lamaçal, alimentado por muitos dos que tinham obrigação de proteger a democracia. E não se protege a democracia sem se proteger as instituições que a representam. A degradação do regime está num ritmo acelerado – e, qualquer dia, não sobra nada nem ninguém em quem confiar.