Já cheira a eleições?

Em democracia, a chave do sucesso, está na capacidade que os vários atores políticos têm de fazer compromissos, de colocar os interesses nacionais acima dos seus. E é isso que falta

Nos últimos sete anos, Portugal entrou num período de ciclos políticos cada vez mais curtos. Primeiro, foi a geringonça, que ruiu. Depois, foi a maioria absoluta do PS, que se esfumou. A seguir, foi a AD, que quis forçar novas eleições, à procura de uma maioria absoluta que não teve. E podemos não ter ficado por aqui.

As últimas duas semanas deram-nos dois sinais neste sentido. Na entrevista à CNN Portugal, José Luís Carneiro começou a despir a capa de líder da oposição dos consensos e de defensor da estabilidade política. Sobre o pacote laboral, já se percebeu: o Governo não pode contar com o PS. Respaldado pela UGT – e, não menos importante, pelo próprio Presidente da República –, Carneiro assumiu a posição imobilista de que nada tem de mudar para que tudo fique na mesma. Por isso, chama à proposta do Governo uma ‘contrarreforma’, como se a sua sobrevivência política à frente do PS dependesse da defesa do legado da governação de António Costa.

Mas o sinal mais importante do secretário-geral socialista surgiu durante as perguntas sobre o Orçamento do Estado para 2027. Depois de ter viabilizado, pela abstenção, o documento deste ano, José Luís Carneiro parece pouco inclinado a repetir o sentido de voto. Questionado sobre a postura do PS nas negociações que se vão iniciar no outono, o líder do PS deixou tudo em aberto, incluindo um chumbo à proposta do Governo.

Carneiro garante que não tem pressa de chegar a primeiro-ministro, mas os sinais que dá vão em sentido contrário. Pressionado internamente pelos críticos da sua liderança e animado pelas sondagens que dão os socialistas à frente da AD, o secretário-geral do PS pode ter um calendário na cabeça que não passa, necessariamente, por deixar o Governo de Luís Montenegro chegar ao fim do mandato.

E o primeiro-ministro pode já ter percebido isso mesmo. Na apresentação da sua moção às diretas do PSD, esta semana, Montenegro falou abertamente da ambição de conquistar uma maioria absoluta para governar. Ora, não havendo eleições legislativas previstas no calendário para os próximos três anos, por que haveria de falar neste tema agora?

O racional político é relativamente simples. Sem maioria no Parlamento, agarrado ao ‘não é não’ a um Chega permanentemente errático e com o PS num turbilhão interno, as condições políticas estão longe de ser as ideais. Se, a isto, juntarmos um Presidente da República acabado de eleger – com o melhor resultado de sempre – e um Pedro Passos Coelho a morder-lhe as canelas, o tático Luís Montenegro pode muito bem estar a fazer as contas para se salvaguardar.

Juntemos a estes sinais um terceiro. O Congresso do CDS, no último fim de semana, ficou marcado pela discussão em torno da AD. Devem ou não os centristas manter este casamento com o PSD? A resposta de Nuno Melo não deixa de ser curiosa: uma rutura significaria abrir caminho ao PS para chegar ao poder. O debate pode parecer meramente académico e próprio de um congresso partidário. Mas porquê agora, quando supostamente faltam três anos para as eleições legislativas?

Uma coisa parece óbvia: os principais protagonistas políticos não estão a contar que esta legislatura chegue ao fim. Nenhum quer ficar com o ónus de uma crise política, mas, no fundo, todos parecem desejá-la para cumprirem os seus objetivos mais imediatos.

A confirmar-se este cenário, António José Seguro poderá ter a sua prova de fogo mais cedo do que imaginou. Em caso de chumbo do Orçamento do Estado, o que fará o Presidente? Se aparecer uma moção de confiança ou de censura que derrube o Governo, que alternativa terá Seguro que não seja convocar eleições? Mesmo que sem qualquer garantia de uma clarificação política.

Em democracia, a chave do sucesso não está necessariamente na existência de maiorias políticas, como demonstra a nossa história recente. Está na capacidade que os vários atores políticos têm de fazer compromissos, de colocar os interesses nacionais acima dos seus. E é isso que falta. Os partidos, os parceiros sociais e as corporações não precisam de estar de acordo em tudo, mas precisam de encontrar um chão comum que nos permita avançar. Caso contrário, podemos fazer as eleições que quisermos, mudar os líderes partidários, fazer greves ou queixar-nos: nada de substancial mudará.