terça-feira, 18 ago. 2026

A Nação está num estado de desconfiança

Sempre que o Estado nos garantir que uma determinada coisa vai acontecer de uma determinada forma e numa determinada altura, já sabemos que não vai ser nem daquela forma, nem naquela altura – e, pior, que pode nem sequer acontecer.

Eis-nos chegados àquela altura do ano em que o país político finge que vai ao divã. É o calendário parlamentar que o impõe — o que, na prática, produz quase os mesmos resultados de uma consulta de psicoterapia a que só fomos porque alguém nos obrigou. Assim, antes de irem a banhos, governantes e deputados reúnem-se para uma coreografia que é sempre igual, independentemente de quem está conjunturalmente no poder. O Governo esforçar-se-á sempre por elevar o que correu bem. A oposição, pelo contrário, fará tudo o que estiver ao seu alcance para expor todas as falhas da governação. Depois, vamos todos de férias e só voltamos a pensar a sério nos problemas do país lá para setembro. É o que é.

Este ano, o país político vai de férias com duas grandes polémicas entre mãos: a dos exames nacionais e a das obras da casa do ministro da Administração Interna. Uma é, obviamente, mais grave do que a outra, mas ambas são muito reveladoras do país em que nos estamos a tornar: um país de desconfiados. E há boas razões para isso.

O caso que envolve Luís Neves arruma-se rapidamente: as explicações foram piores do que a notícia original, e 52 anos de democracia ainda não foram suficientes para os políticos aprenderem que a melhor forma de gerir uma crise é conseguir antecipá-la. E que a melhor forma de comunicar é com verdade e transparência total. Qualquer outra estratégia só servirá para corroer politicamente o visado e o Governo de que faz parte, além de aumentar a desconfiança dos cidadãos em relação à classe política.

A polémica na educação é substancialmente mais grave. Acho que é chegado o momento de assumirmos todos, coletivamente, o seguinte: sempre que o Estado nos garantir que uma determinada coisa vai acontecer de uma determinada forma e numa determinada altura, já sabemos que não vai ser nem daquela forma, nem naquela altura – e, pior, que pode nem sequer acontecer. É mais fácil assim. Preparamo-nos para o pior e já não sofremos tanto.

No fundo, era isso que estava subjacente à polémica declaração de Fernando Alexandre, quando disse que os pais já deviam saber que não se deve marcar férias em datas próximas dos exames. Qualquer português tem a obrigação de saber que, com o Estado, nunca fiando. Por segurança, o melhor é tratar da marcação de férias só na segunda quinzena de julho. Ou, melhor ainda, esperar por agosto para reservar o hotel e comprar o bilhete de avião. Não vá o Estado tecê-las.

Com o Estado português, se alguma coisa pode correr mal, o mais provável é que corra mesmo mal. Com exceção da máquina fiscal – que não falha um dia de cobrança e não perdoa um cêntimo de juros –, em quase tudo o resto, a relação de confiança com o cidadão tem-se vindo a degradar a um ritmo muito acelerado.

A saúde é, provavelmente, o caso mais evidente e dramático, pelos números, mas, sobretudo, pelo impacto que tem na sociedade: um país que gasta 18 mil milhões de euros por ano dos impostos dos contribuintes num sistema público de saúde, e que vê os seguros de saúde e o setor privado a florescerem como cogumelos, tem claramente um problema de confiança com os seus cidadãos. Mas há outro setor de que se fala pouco e que, neste Governo, parece ter uma ministra desaparecida em combate: a justiça. O país continua a assistir incrédulo – e, ao mesmo tempo, sem conseguir virar a cara – ao reality show do julgamento da Operação Marquês, que tem como principal protagonista um ex-primeiro-ministro chamado José Sócrates. O caso arrasta-se há 12 anos, Sócrates continua a gozar com o Estado português, ridicularizando-o todos os dias, e nada acontece. Não no julgamento, onde as nossas esperanças já só podem recair na juíza Susana Seca, mas na forma como a justiça não funciona em Portugal. Onde está a grande reforma de Luís Montenegro nesta área? Ou, pelo menos, uma ideia de reforma, mesmo que não haja condições políticas para a fazer? É possível confiar numa justiça que demora décadas a decidir? É possível confiar numa justiça que fraqueja aos pés dos poderosos, mas é implacável com os fracos?

Os exemplos de falhas do Estado – e de quem o representa –, que vão minando a confiança dos cidadãos, não cabem todos no espaço dedicado a este texto. Mas, já que estamos no divã, em semana de Estado da Nação, onde tipicamente quem é da oposição ataca e quem é do Governo defende-se, talvez seja útil lembrar duas coisas: ao Governo de Luís Montenegro, que o tempo não está a jogar a seu favor e que as aparências só iludem até um certo ponto. Pode até fazer-se à falta ou estar à espera de eleições para procurar a maioria absoluta que já lhe escapou duas vezes. Mas, sem ideias e coragem, não há maioria absoluta que o salve. À oposição, sobretudo ao PS e ao Chega, é também preciso lembrar que o atual quadro político – como já se provou várias vezes – permite fazer maiorias numa geometria muito variável, que não servem apenas para aprovar medidas simpáticas para o eleitorado. Se o estado da Nação é, hoje, de desconfiança crescente no Estado, a responsabilidade também é da oposição.