Há momentos na vida dos povos em que é mesmo assim: é preciso escolher em que espaço e com que regras queremos viver. E se essa escolha implicar ou chocar com pessoas que conhecemos ou gostamos? E se forem pessoas em que confiámos no passado para cargos de relevo? E se nos tiverem ajudado algures no percurso?
Temos de decidir à mesma! Quando está em causa a integridade da democracia, não podemos transigir.
Vem isto a propósito do que se passa com Luís Neves e o silêncio cúmplice dos vários protagonistas políticos que parecem ter medo de falar e de exigir respostas. Algum político ou dirigente teve, perante factos semelhantes, a mesma ‘tolerância’ que grande parte das elites políticas, mediáticas e institucionais tiveram e têm com Luís Neves? A algum outro dirigente seria permitido estar 19 dias em silêncio, fazer a sua vida normal, e depois dar uma conferência de imprensa autoritária que supostamente seria para ‘respostas ponto por ponto’?
A resposta é não. Evidentemente que não!
A partir daqui, devemos questionar o porquê. Alguns podem pensar que é uma guerra política, que Luís Neves atacou a narrativa da imigração do Chega, e que por isso não devem exigir demasiado do Ministro. Outros que se trata de ‘minudências’ pessoais e que não se pode exagerar no escrutínio político.
Mas, sejamos francos, a grande maioria dos políticos ficaram apenas na defensiva, com receio de ‘consequências desagradáveis’ caso incomodassem Luís Neves ou alguns membros da PJ. Sejamos ainda mais francos: PSD e PS mostraram uma enorme cobardia nas reações exatamente pela mesma razão, conforme até alguns antigos líderes vieram apontar. Até o Bloco, o Livre e o PCP mostraram que, na verdade, estão agarrados ao mesmo sistema. E a Iniciativa Liberal acordou quando percebeu que a posição do Chega tinha sido a mais acertada e responsável perante factos de tamanha gravidade.
A verdade é que a primeira reação, a mais intuitiva , do sistema político, foi defender-se. Os lideres políticos e os partidos ouviram Luís Neves dizer num tom ameaçador a mim próprio e ao Chega : ‘vais pagá-las!!!’ Porque razão se haveriam de pôr na linha de fogo de alguém que liderou uma polícia criminal e que poderia ter os famosos ‘dossiers’ para divulgar sobre toda a gente?
Percebo tudo isso, mas também percebi desde o primeiro momento que se os partidos representativos da democracia tiverem medo, sobretudo se o líder da oposição tiver medo, não estamos numa democracia real. José Luís Carneiro bem pode esboçar aquele sorriso cínico e de aparente desprezo quando se fala nisto, mas sabe bem o que está em causa e as razões pelas quais tentou até ao limite manter silêncio ou arranjar distrações. Os poderes ocultos também sabem.
Só que os poderes ocultos não podem mandar numa democracia e o medo não pode coartar a liberdade, ou torna-se a tirania de alguns. E, sobretudo, leva as boas instituições para o lodo e acelera a sua degradação de forma imparável. É isso a que estamos a assistir em Portugal.
Às notícias que vão surgindo de forma mais intensa e com factos (ainda mais) suspeitos, sucede-se a crescente incredulidade dos cidadãos. Em quem podem ainda confiar? Estaremos a viver um sistema em que algumas investigações foram propositadamente abafadas e outras potenciadas por razões políticas? Porque foi Neves afastado da operação Influencer que ditou a queda de António Costa? Porque o levou Montenegro para o Governo diretamente da PJ? E como ninguém reparou que não entregava declarações de rendimentos e património durante 8 anos? Haverá um sistema fechado e independente dentro das instituições, uma espécie de Estado dentro do Estado?
Estas perguntas têm de ter resposta, seja numa comissão parlamentar de inquérito, seja no trabalho de alguns jornalistas corajosos, seja nas denúncias de uma série de funcionários/dirigentes que, mesmo pondo em causa a sua segurança e ligações, decidiram que é tempo de falar e desarticular ‘a teia’. E está a acontecer. Alguns estão a falar e a aparecer, com coragem e determinação.
Quando, após reunir com membros da Direcção Nacional do Chega e partilhar alguma da informação que tínhamos recebido sobre este caso, decidimos avançar na exigência de escrutínio público, vários amigos que prezo disseram-me: agora vão tentar anular-vos, agora vão perseguir-vos ou intimidar-vos com processos. Agora vão escutar-te e seguir-te. Agora será o inferno para ti e para o Chega!
Acredito que tenham tido boas intenções ao dizer-me isso. Acredito que também a alguns jornalistas tenham dito isso. Acredito que neste país que é Portugal isso se tenha tornado a cultura dominante. Mas não pode vencer sempre. E não nos podemos resignar sempre.
Acredito hoje que Sá Carneiro foi assassinado por contrariar uma série de interesses ocultos. E esses interesses e poderes talvez tenham criado e desenvolvido uma ‘cultura dominante’ que se apoderou de parte do Estado político, de parte das instituições mediáticas e até judiciais. E se calhar continuam aí... a amarrar tudo e todos à sua vontade em novas formas de influência e fórmulas de cancelamento de quem os desafia. Mas isso tem de acabar. Cedo ou tarde, tem de acabar.
Depois de ver as ilegalidades cometidas e assumidas por Neves como se nada fosse, depois de ver o silêncio de alguns órgãos de comunicação social que nunca o fariam noutros casos, depois de ver a intimidação a jornalistas e a camaradagem de impunidade que se gerou entre alguns políticos de responsabilidade – mesmo com os factos diante dos nossos olhos –, fiz a pergunta a mim mesmo antes de submeter esta Comissão de Parlamentar de Inquérito aos mandatos de Luís Neves: o que faria Sá Carneiro nestas circunstâncias? Avançaria ou deixaria cair?
Tenho a certeza que ele avançaria. E eu, que tantas vezes falo dele, tenho de avançar também.
Como tanto ele gostava de dizer: a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha.
Vamos, por isso, fazer o correto. E honrar definitivamente a sua memória!