O Novo Alcácer-Quibir

Será que os portugueses ainda não ultrapassaram o trauma de abandono gerado por Dom Sebastião?

O sebastianismo é uma das metáforas mais melancólicas e mais personificadas da Identidade nacional portuguesa. Não é só mais um episódio de “trono vacante” ou perda da identidade nacional, é a demonstração de que o povo português precisa de alguém a comandar como os ídolos que temos atualmente, como os influencers ou grandes músicos.

Após a perda da independência no ano de 1580, o sebastianismo tornou-se uma resposta psicológica e alegórica ao trauma coletivo nacional. A esperança de que o rei voltaria, num dia de nevoeiro, encobria o negacionismo em aceitar a responsabilidade histórica do presente. Essa lógica reaparece ciclicamente na política portuguesa: a espera de um salvador, enquanto se tolera a estagnação.

Ao longo dos vários momentos da nossa história existe um padrão na mentalidade nacional: a dicotomia entre uma expectativa messiânica e o pragmatismo resignado. Podia falar de diversos fatores e figuras, dada a riqueza da nossa história nacional. Todavia, prefiro refletir sobre algumas figuras que, alegoricamente, oscilam entre serem os novos Sebastiãos nacionais e serem só mais uma personagem de rodapé. Podemos falar de João Franco que, no tempo da monarquia constitucional numa tentativa de ultrapassar uma paralisia do sistema político, governou com autoritarismo, acreditado que seria por essa força impositiva e não pela força do trabalho, que conseguiria resolver as várias crises do final do século XIX. Para além de não conseguir resolver o impasse e a bancarrota advinda do Ultimato Inglês contribuiu que, em 1908, os republicanos Buiça e Alfredo Costa, assassinassem Dom Carlos. Como se a morte significasse o fim da estagnação do país e levasse a um milagre. As raízes católicas apostólicas romanas associadas ao mito do sebastianismo fizeram que no pensamento português se acentue a ideia de um milagre que tudo resolva. E é isso que faz com que a palavra que se encaixa na forma de ser português, é de encontrar uma figura que comande e a quem nos entregamos.

No inico do Estado Novo ainda se pensou que o Marechal Carmona pudesse encarnar desejo sebastianista do país. Na realidade o poder estava inteiramente nas mãos de um improvável r professor de Coimbra, rodeado de outros catedráticos que impôs um regime de 48 anos, que nos afastou ainda mais dos sonhos que o Sebastianismo representa. Essa herança é ainda visível na atualidade portuguesa, na forma como muitas vezes se privilegia a gestão do curto prazo, a manutenção do equilíbrio social mínimo e a aversão

ao conflito político aberto. A estabilidade é valorizada como um bem em si mesmo, e não num bem comum. Quando implicamos adiar reformas profundas em áreas como a administração pública, a justiça ou o modelo económico, comprometemos o futuro nacional.

Desde a imposição da democracia nos anos 70, os portugueses têm participado ativamente na construção democrática através de votações, mas na verdade, não conseguiram expurgar a necessidade de manutenção da ideia ligada a uma figura “sebastiânica” que tudo resolva. Ora a história demonstra que em qualquer lugar do mundo estas figuras não existem. Cada um tem que se consciencializar de que figuras sebastiânicas não são mais que mito e que só os seus contemporâneos podem resolver os problemas diários que coletivamente nos confrontamos. Isto sem negar que os mitos fazem parte da identidade nacional.

Provavelmente a verdadeira modernidade política portuguesa comece quando o nevoeiro deixe de simbolizar a esperança e demonstrar a realidade: só desaparece quando se decide avançar, mesmo sem o retorno do “grande herói sebastianista”.

Professor e historiador