segunda-feira, 13 abr. 2026

Vida madrasta

Ser madrasta ou padrasto é difícil, ser enteado também é. As famílias em que esta nova organização corre bem são o resultado de muito trabalho e esforço.

A vida fez-me madrasta. E madrasta de uma enteada que não gosta nada da palavra e diz apenas que eu sou a “Ana”. Eu entendo-a muito bem, a palavra remete para a madrasta megera da Gata Borralheira ou a madrasta perversa da Branca de Neve. Passei também a estar mais atenta à frequência com que se usam expressões como «a vida foi-lhe madrasta» ou «uns são filhos e outros enteados». Há uma violência nas palavras que se associa a hostilidade, competição e falta de amor, e essa violência pesa. 

Ser madrasta ou padrasto é difícil, ser enteado também é. As famílias em que esta nova organização corre bem e todos conseguem sentir que pertencem (pelo menos na maioria do tempo) são o resultado de muito trabalho, esforço e regulação emocional. E o trabalho começa muito antes de aparecer sequer um candidato a padrasto ou madrasta.

Começa por, logo a seguir à separação, não usar frases como «O teu pai deixou-nos e está com a nova família». Ou «A tua mãe agora já não quer saber de vocês, está apaixonada!». Em muitas separações, o iniciador da separação pode já estar numa relação com outra pessoa e provavelmente vai continuar a estar. Esta pessoa vai fazer parte da vida dos seus filhos. Há uma escolha a fazer: em prol dos seus filhos, ou minando todas as hipóteses de eles terem uma relação saudável com alguém que, boa ou má, vai ter influência na vida deles.

Quando somos o único adulto da casa é importante não dar um papel de companheiro a um filho. Com esta frase quero dizer, por exemplo, não ser o filho mais velho a ir sempre à frente nas viagens de carro, esse lugar pode ser partilhado por todos e cedido sempre que há um outro adulto presente. Também é importante que as crianças mais pequenas entendam que a cama da mãe ou do pai é de casal e não é território natural dos filhos. Dormirem connosco é a exceção, não a regra. É crucial habituar as crianças a estarem em almoços e programas sociais em que há outros adultos, com conversas de adultos e a partilhar a atenção da mãe ou pai. Há crianças que ficam muito aflitas nesta situação porque sempre as habituaram à atenção exclusiva do adulto. A criança não é nem tem de ser sempre o centro das atenções (e muito menos o tema das conversas).

E por último, tudo se complica quando o pai ou mãe “pede autorização” aos filhos para ter um namorado ou uma namorada. Alguns fazem-no em público, meio a brincar, outros fazem-no a sério e explicam, convictos, que não estão disponíveis para conhecer ninguém porque a filha «já disse que não quer». Há perguntas que não se fazem aos filhos porque a pergunta em si já pressupõe uma responsabilidade que não é deles. Mais tarde estes pais podem queixar-se com amargura de que por causa dos filhos não voltaram a estar em casal. Mas não foi, foi porque não quiseram fazer o seu papel e mostrar aos filhos com segurança e amor, qual é o deles.

E cabe sempre aos pais observar e avaliar se o novo namorado ou namorada tem condições para fazer parte da vida dos seus filhos. Há relações que têm de acabar porque a convivência não funciona, sem dúvida. Mas em muitos outros casos, se os adultos fizerem a sua parte, pode correr muito bem.