Um psicólogo pode ser racista? 

Quase toda a gente tem um tio xenófobo, racista ou homofóbico. Também na psicologia e psiquiatria sempre existiram estas bizarrias pontuais.

Uma adolescente tinha ido a uma consulta de psicologia, estava com problemas com o namorado, também ele adolescente. Ela ia contando a história e a psicóloga ouvia, parafraseava, resumia e parecia empática e interessada. De súbito e sem que nada o fizesse adivinhar, interrompe a paciente com um tom chocado e a seguinte exclamação: – ‘Então mas ele é preto?!’. Também muita gente se lembra de Maria José Vilaça, psicóloga simpatizante de ‘terapias de conversão sexual’ que associava homossexualidade a fases maníacas da bipolaridade. Quase toda a gente tem um tio xenófobo, racista ou homofóbico. Isso não é novo, e também na psicologia e psiquiatria sempre existiram estas bizarrias pontuais que seriam apenas caricaturas não fosse o caso de estarmos a falar de uma profissão de ajuda que encontra pessoas em momentos de grande vulnerabilidade e sofrimento. 

Há muitas outras situações mais subtis, insidiosas e por isso mesmo ainda mais perigosas: Vi de perto uma psicóloga infantil a alinhar com os pais em ralhetes a uma criança de 6 anos porque ela apresentava ‘maneirismos efeminados’. Também vi um psicólogo conduzir subtilmente um paciente no sentido de manter o seu casamento com a mulher quando ele aos 33 anos o procurou porque finalmente conseguiu dizer alto que a sua preferência sexual é por homens. E antes que alguém pergunte, seria deontologicamente e tecnicamente errado conduzir noutra direção, em conduzir é que está o problema. Os terapeutas ajudam a compreender necessidades, padrões, comportamentos e riscos. E deste modo ajudam a fazer escolhas, não guiando os pacientes para onde acham que está certo, ao sabor das suas próprias crenças. Numa época em que a mais elementar crueldade, falta de respeito e cuidado pelo outro é aceite como “dissenso” é importante de vez em quando ir consultando os Códigos Deontológicos das Ordens Profissionais para não nos esquecermos que às vezes o que é, é. A aceitação positiva incondicional de que falava Carl Rogers é a base da atitude terapêutica. Este princípio está no Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portuguesas como ‘Respeito pela Dignidade e Direitos da Pessoa’:

Os/As psicólogos/as devem olhar para a pessoa como um ser único, diferente de todos os outros, com vontade própria que, mais do que ser apenas respeitada, deverá ser promovida no contexto relacional característico da pessoa humana. Este princípio implica que os/as psicólogos/as devam respeitar e promover a autonomia e autodeterminação do/a seu/sua cliente, aceitando de forma incondicional as suas opiniões, preferências, credos e as características decorrentes da afirmação do seu caráter, desde que integradas num quadro de coerência e de respeito pelo outro.

Um psicólogo pode ser racista, xenófobo ou homofóbico? A resposta óbvia é sim. Tanto pode que haverá muitos. Quem estuda a fundo os preconceitos e estereótipos, diz-nos que todos os temos. Por isso o trabalho de terapia pessoal e supervisão clínica ao longo da vida de um psicoterapeuta são essenciais. Para se aperceber deles, não deixar que eles guiem as suas ações e entender quando não tem condições para acompanhar alguém porque poderá causar mais dano do que ajuda.

Psicóloga, Psicoterapeuta, Executive Trainer