Por esta altura já as decisões de Ano Novo estão em andamento. Para alguns a correr bem e para uma imensa maioria a não correr. A investigação mostra que as mudanças que esperamos que o Ano Novo nos traga não se costumam realizar. E as razões são as mesmas que nos dificultam a mudança ao longo de todos os outros dias do ano. Uma é esta ilusão de que algum efeito externo como a alteração de um dígito consegue substituir a minha falta de ação até aqui. Como se bastasse a inspiração que o ano traz para fazer mudanças importantes. Aliás, “Inspiração” parece-me das palavras mais vazias e banalizadas que se vão usando. Muito do movimento de desenvolvimento pessoal e autoajuda assenta neste princípio: basta saber o que se quer e dar o pontapé de saída para se conseguir lá chegar. E por isso as intervenções são pontuais, intensas, catárticas, e não funcionam. Esta motivação instantânea pode ser um bom iniciador mas não mantém o comportamento. Porque mudar alguma coisa em nós é um processo e não uma epifania.
É um processo que os psicólogos Prochaska e DiClemente definiram de um modo muito diferente do que o senso comum diz. Afirmam que a mudança é não linear, uma espiral ascendente em que as recaídas fazem parte do processo (a correr bem). É uma espiral ascendente porque mesmo quando a pessoa volta atrás já não volta ao ponto de partida. Tem outra consciência e outra experiência que pode usar no futuro. Lembro-me muitas vezes do testemunho de uma pessoa dos Alcoólicos Anónimos: Um amigo tinha-o “arrastado”, contra a sua vontade, para uma reunião dos AA. Dizia ele: «Depois de sair daquela reunião, bebi muito, bebi se calhar ainda mais, mas nunca mais bebi da mesma maneira». O processo de mudança começa muito antes do comportamento cessar. Há um mal estar interno que vai crescendo até ao ponto de pelo menos temporariamente desequilibrar a balança e fazer querer experimentar fazer diferente.
O segundo obstáculo à mudança é traçarmos grandes objetivos que são demasiado vagos ou irrealistas: Querer estar em forma não é tão concretizável como “passar a dar uma caminhada de 20 minutos, 3 vezes por semana, quer chova quer faça sol”. Só conseguimos controlar o que monitorizamos, soa menos grandioso, mas é muito mais eficaz. E se numa semana não fiz nenhuma caminhada, o que posso fazer é ir o mais rapidamente possível andar, mesmo que sejam 5 minutos, e não ficar a fazer grandes planos para recomeçar as caminhadas.
Por último, não há nenhuma mudança sem sofrimento e nenhum fator externo pode substituir aqueles momentos cruciais em que com desconforto e sem nenhuma vontade avançamos na mesma. Lembro-me sempre de uma paciente que queria conseguir falar em público. Tinha experimentado várias ajudas, inscrevia-se nos cursos, ia ao primeiro dia, mas depois fugia antes de estar em palco. Quando, no nosso processo, chegou a altura de fazer a primeira apresentação importante para ela, contava-me depois: «Fui todo o caminho a imaginar que naquele dia não me importava de ter assim uma coisa simples que me fizesse ter de ir ao hospital e escapar à apresentação, nada de grave, não seria um AVC, talvez só um AIT, dos pequeninos…».