A raiva é uma emoção básica, comum, frequente, aparece de um momento para o outro, intensa, vulcânica, sobretudo em momentos de vulnerabilidade ou frustração e facilmente se pode traduzir em comportamentos agressivos, reativos, guiados por pensamentos absolutos e rígidos. As teorias que a raiva alimenta são tão cristalinamente a verdade que o caminho parece óbvio: identificar o inimigo e atacar com todas as nossas forças. É uma emoção tão potente e poderosa como destrutiva. A emoção que nos permite ver “claramente” o “certo e o errado”, a “verdade e a mentira” e “os meus e os outros”. Nada mais instintivo, muito útil para sobreviver na selva, a arma fácil dos políticos populistas e a maior ameaça às relações e à sociedade.
Faz parte do trabalho de um psicoterapeuta ajudar as pessoas a lidarem com a sua raiva, a saberem ler as pistas que ela dá, com flexibilidade, compaixão por si próprios e por quem os rodeia. Com capacidade de adaptação, de resistir à frustração e de fazer resistência quando é preciso.
A vida é difícil e há vidas muito mais difíceis do que outras. Há umas semanas atrás chamei um táxi e fui conduzida por um senhor de oitenta anos que me disse que para juntar a uma reforma de 450€ tinha de continuar a guiar um táxi das 7h30 da manhã às 16h00 até ao fim da sua vida para conseguir pagar a casa e as contas. A mulher tinha morrido no mês passado e ele era uma mistura de dor e zanga. Este homem de 80 anos que trabalha todos os dias desde as 7h30 da manhã para pagar as contas, a quem a mulher morreu há menos de um ano, a certa altura disse: «A mim não ajudam eles, só aos pretos e aos ciganos». Cá estava a raiva, a face menos conhecida do luto.
Para além das grandes perdas pelas quais provavelmente vamos todos passar, viver é também em grande medida fazer contínuos pequenos lutos: aceitar o que não se escolheu e agora já não é uma escolha, o que se perdeu, o que outros conseguiram e nós não. Os políticos populistas alimentam-se desta raiva fora de tempo que é o ressentimento.
Ninguém devia ter de trabalhar aos 80 anos para poder sobreviver, e esta não será sequer a mais chocante das histórias que ouvimos todos os dias e nos mostram que muita coisa está a correr muito mal e precisa urgentemente de mudar.
Vamos mais uma vez para eleições e a raiva está ao rubro, a ser explorada por um dos candidatos às eleições presenciais. O tom irritante e jocoso, ao serviço dos instintos mais básicos, destrutivos e tribais, a encaminhar-nos para os becos onde a raiva nos leva. E a técnica clássica de fingir ter uma solução simples para um problema complexo, usando a velha estratégia de identificar um culpado, diferente de nós, de outro grupo. As provocações, generalizações, insinuações, a entoação final das frases, em falsete, com o timbre a subir. Não há espaço à cooperação, à compaixão, ao humanismo, às verdadeiras mudanças. Nada disto tem valor para quem vive de explorar a raiva dos outros. Cabe-nos a nós resistir, e lembrarmo-nos que não se pode ser um português de bem sem se ser, antes de tudo, uma pessoa decente.