Para que o mal triunfe

Desprezar (abertamente) a empatia, a justiça e a solidariedade passou a ser aceitável.

Sempre me interessei por histórias de coragem e de altruísmo. Muito mais do que os heróis que chegam ao topo a qualquer custo, admiro os que tomaram decisões em função de valores e de princípios. É daí que vem a importância que dou à assertividade, à capacidade de as pessoas se conseguirem fazer ouvir, se posicionarem. E no trabalho, o interesse pelo desenvolvimento de bons líderes entusiasma-me sobretudo como forma de subir o nível moral das Organizações. Até há cerca de um ano a maior dificuldade que sentia, e o foco do meu trabalho, era conseguir alinhar entre o nosso discurso e as nossas ações. Porque alguém dizer de si próprio que era justo, respeitador, corajoso e ético era o habitual e o valorizado. E era também esse o nosso objetivo público, mostrar estas virtudes morais. Só que a realidade mudou. A primeira vez que percebi isto foi quando uma pessoa conhecida me disse que não gostava de outra pessoa porque ele era “um moralista”. Para mim as duas únicas razões para se criticar alguém que era moralista seriam: esta pessoa ser impositiva relativamente à sexualidade, afetividade ou outras escolhas estritamente individuais, ou ser aquilo que se chama um hipócrita: afirmar uma coisa e fazer o seu contrário. Tirando estas hipóteses, criticar alguém por ser exigente consigo próprio em relação a valores e princípios e ser crítico da atuação dos outros quando eles não os seguem, parecia-me ético, não condenável.

O discurso público mudou, a crueldade está na moda. Dizer de alguém: «Ele diz o que todos pensam!» é visto por muitos como um elogio. Desprezar (abertamente) a empatia, a justiça e a solidariedade passou a ser aceitável. Convido cada um a refletir sobre os pensamentos mais mesquinhos que já teve, naqueles que aparecem quando está frustrado, com inveja ou inseguro. Vai ver que vão diretos às características da pessoa ou do grupo a que ela pertence. É muito básico e simples, e é sobretudo cruel. Se formos suficientemente saudáveis e morais, não passarão de pensamentos e que, por isso mesmo, são inocentes e privados. Mas agora são mais do que pensamentos, são cartazes.

Como fica o discurso das organizações quando o discurso da sociedade muda? Como é que um líder que apoia as ideias de um partido como o Chega pode agir baseado no respeito pela diferença, na integração da diversidade, na promoção de maior equilíbrio de género nos papeis de liderança? E o que muda na mensagem difundida nas escolas, nas famílias, naquilo que ensinamos às crianças? Como se explica a um filho que uma criança estrangeira tenha sido vítima de bullying por não ser portuguesa quando se apoia um cartaz que diz “Isto não é o Bangladesh”?

Precisamos de mais moralistas ou, pelo menos, de pessoas morais a falar sobre estes assuntos. Porque, como diz a frase atribuída ao filósofo Edmund Burke: «Para que o mal triunfe basta que os bons não façam nada».