Os divórcios e separações são uma das crises de vida mais dolorosas pelas quais podemos passar e pelas quais muitos de nós vão passar ou já passaram. São lutos por pessoas vivas que vão fazer parte de nós para sempre. Quando não há crianças no meio, na fase mais aguda da zanga pode-se fazer planos de furar pneus de carros e dizer coisas horríveis à outra pessoa. Odiamos com toda a força e mais tarde muito provavelmente já se vai conseguir pôr em perspetiva e olhar com distanciamento para aquela altura em que estávamos em carne viva. Para algumas pessoas em vez da raiva, vai ser o não conseguir largar, o ficar a preparar dentro da cabeça um plano de recuperação, e por isso continuarmos a seguir cada passo que ele ou ela dá e interpretar cada palavra ou expressão que é publicada nas redes sociais sem conseguirmos ainda imaginar uma vida onde esta pessoa não está. E outros, aquilo de que precisavam era de um corte total de comunicação, um arrancar à força e aguentar em cold turkey. E talvez o mais provável seja passarmos bastante tempo numa mistura destes três estados.
Só que às vezes a separação é do pai ou da mãe dos nossos filhos.
E aí temos que fazer o luto da relação com alguém ao mesmo tempo que construímos uma relação diferente com essa mesma pessoa. É brutal e é muito difícil. Muitas pessoas não o fazem e quando não o fazem, os filhos sofrem as consequências.
Não estou a falar de alienação parental, ou casos de violência explícita. Mas sim de situações mais “normais” do quotidiano como arrancar um bebé dos braços do outro progenitor sem o cumprimentar ou sequer olhar para ele, de obrigar a criança a ter a roupa milimetricamente dividida por casas porque “Quero cá em casa o casaco que eu te comprei!”, de pais que fazem um esgar de repulsa quando a criança fala de algo que aconteceu na outra casa com as outras pessoas ou de crianças que têm que ter duas festas de anos porque os pais não conseguem comportar-se como adultos civilizados se estiverem na mesma sala.
Parece-me que muitas pessoas acham que ao terem estes comportamentos deixam os seus filhos “tristes” porque todas as crianças gostariam que os pais se dessem bem. Desenganem-se, é muito mais do que isto. É obrigar uma criança a construir duas versões de si própria quando construir uma só ao longo da infância e adolescência já é um trabalho árduo. É ensinar que uma relação amorosa entre dois adultos corre o risco de se transformar num reservatório de mágoa e ressentimento, tornando um dos adultos uma vítima do outro, onde não havia violência nem crime. É forçar as crianças a assumirem um papel de companheiro do pai ou da mãe que lhe exige o que ela ainda não tem para dar. É pôr nos filhos a responsabilidade de serem a fonte de alegria e realização de pais que desistiram de si próprios muito cedo.
E não, isto não é pôr os filhos acima de tudo.