sexta-feira, 13 mar. 2026

Os amorais

Kohlberg assume que um mais alto desenvolvimento moral aumenta a probabilidade de agir com mais ética.

Em 1958, Lawrence Kohlberg, psicólogo norte-americano, criou uma teoria do desenvolvimento socio-moral. Em traços gerais, afirma que as pessoas desenvolvem o seu sentido de certo e errado por estádios, à medida que crescem e ganham experiência de vida. O estádio mais básico é baseado na obediência e punição e o estádio mais elevado, raro de atingir, é baseado nos princípios éticos universais. Para ilustrar o modelo, Kohlberg propõe dilemas morais, onde o que conta é tanto a resposta dada como a razão de se dar essa resposta. O mais conhecido é o dilema de Heinz. Resumidamente o enunciado é o seguinte: A mulher do Heinz está a morrer de uma forma rara de cancro. Nesta cidade um farmacêutico local criou o tratamento que a pode salvar e está a cobrar dez vezes o custo de um medicamento. O Heinz já tentou pedir dinheiro emprestado a Bancos, a amigos e negociar com o farmacêutico para baixar o preço mas nenhuma destas tentativas funcionou. Pergunta do dilema: O Heinz deve roubar o medicamento para salvar a sua mulher? Uma resposta de estádio 1 seria: ‘Não deve roubar porque pode ser preso’. Uma resposta do estádio 5 seria: ‘Deve roubar o medicamento e salvar a sua mulher porque o direito à vida é mais importante do que o direito à propriedade’. É bom notar que o modelo é sobre o que achamos que deve ser feito, um juízo de valor, e não sobre o que faríamos. Kohlberg assume que um mais alto desenvolvimento moral aumenta a probabilidade de agir com mais ética.

Usei muitas vezes o dilema de Heinz em workshops, o entusiasmo por estes debates sempre variou muito, havendo pessoas muito entusiasmadas e outras que se interessam pouco e sobretudo mostram pouca experiência em pensar sobre o que está certo e errado. Kohlberg acreditava no desenvolvimento moral porque acreditava que «quem conhece o bem faz o bem». Muitas críticas se ergueram em relação ao modelo e sua aplicabilidade prática mas a frase «quem conhece o bem faz o bem» é uma máxima e um mantra que se repete baixinho ao ver os telejornais.

Baseada na minha experiência, fui notando um desinteresse crescente em debater estes temas. O ponto alto desta minha afirmação aconteceu numa equipa de managers de uma start-up. Todos bastante diferenciados, com a capacidade e a função de tomar decisões estratégicas todos os dias. No final do exercício vieram em bloco dizer que este tipo de debates não era nada estimulante para eles, o que lhes interessava era apenas engenharia e gestão. Falo do que vejo, com todos os vieses e juízos de valor que certamente farei, acredito que há uma relação entre esta sociedade do desempenho e realização individual, focada apenas em atingir resultados desde o pré-escolar, e a alienação acerca do sofrimento do outro, do racismo, machismo, xenofobia, pobreza. E a falta de noção universal de justiça e do bem comum, já para não falar da compaixão e do amor ao próximo. A realidade que estamos a viver mostra bem a ausência destes valores: o discurso político dos Andrés Venturas desta vida e os discursos de quem nem o apoia nem o critica, numa excelente demonstração de faro político e postura ‘deixa lá perceber o que eles querem ouvir…’ Não é que façam muito raciocínios que sustentem a imoralidade. É apenas o vazio, a forma a substituir o conteúdo. Não são imorais, são amorais.