Ele está sempre a falar com a ex-mulher

Se gosta muito da pessoa mas não quer partilhar a sua vida com os filhos dela, é melhor desistir da relação.

Conheço demasiadas histórias em que as pessoas se mantêm numa relação romântica com alguém que tem filhos apesar de sonharem com o bom que seria se estes filhos não existissem. O maior problema não está neste desejo, está nas micro a mega agressões que fazem parte do dia a dia destas famílias. O revirar de olhos quando os filhos da outra pessoa telefonam, o tom seco que se instala mal eles chegam a casa ou os olhares matadores quando os veem agarrados ao pai ou à mãe no sofá. E também a crítica e vigilância a toda a comunicação e relação que existe com o outro progenitor da criança, e com ex-sogros e cunhados e todas as pessoas “do outro lado”. Pessoas que, se as coisas correrem bem, fazem e continuarão a fazer parte da vida do seu namorado ou namorada.

Isolina Ricci, autora de Casa da Mãe, Casa do Pai diz muito claramente: «A linguagem importa, o seu ex-marido é o pai dos seus filhos e é nesta condição que vai continuar na sua vida. É melhor falar dele desta forma». Diz também, na sua «carta dos direitos das crianças com pais divorciados», que «cada criança tem o direito de ter duas casas onde se sente amada e onde tem condições para as suas rotinas habituais». E acrescenta ainda que «cada figura parental tem direito a ter a sua vida privada e o seu próprio território e a educar as suas crianças sem interferências da outra figura parental para lá da razoabilidade». Quem lida de perto com a vida dos outros sabe que a realidade nem sempre se rege por estas regras. Mas como é que as crianças vão conseguir viver bem sem estas condições? Como é que uma criança se sente amada numa casa onde existe um adulto que a ignora ou lhe mostra sinais de hostilidade?

Acredito que por trás de cada reação hostil de um padrasto ou de uma madrasta está uma dor que se reflete em raiva. Não é fácil entrar numa família que já existe, é preciso um amor próprio estável e uma capacidade de aguentar um sentimento de que não pertence e até que está a ser posto de parte. Se em vez de crianças estivermos a falar de adolescentes, a dificuldade pode ser exponencial. E é preciso ir-se lembrando muitas vezes de “quem é o adulto aqui?” e trabalhar em casal. Não pode caber à madrasta ou ao padrasto em exclusivo criar um lugar para si numa família onde esse espaço não existe.

 Se gosta muito desta pessoa mas não quer partilhar a sua vida com os filhos dela, sobretudo se estivermos a falar de crianças ou adolescentes, é melhor desistir desta relação. Um adulto pode encontrar outro namorado, uma criança não pode ir procurar outra mãe ou pai. 

Sentir ciúmes dos filhos do seu companheiro ou companheira é natural, sentir que não pertence também é natural. O que não me parece aceitável é agir como a madrasta má da Branca de Neve. 

Pode ajudar fazer a si próprio as perguntas certas: 

Se eu fosse criança como gostaria que a minha madrasta ou padrasto me tratassem?

Se esta criança fosse minha filha, como gostaria que a sua madrasta ou padrasto a tratasse?

Se eu estivesse a ver de fora o meu comportamento, o que eu acharia?

Eu aceito ser a causa do sofrimento de crianças que não têm escolha? E o que é que isto diz sobre mim? 

Por muito que soe um cliché, acredito mesmo que os papeis difíceis são aqueles que nos fazem melhores pessoas.