sexta-feira, 13 mar. 2026

Até que o divórcio nos separe

Aceitemos que as pessoas têm o direito de nos deixar. E nós podemos sobreviver a esse final de relação.

Uma parte significativa dos casamentos acaba em divórcio. Todos conhecemos os números. Outros números que todos conhecemos são os da violência doméstica. É absurdamente alta, seja violência psicológica ou violência física e com um número muito mais elevado de homens a serem agressores. Conhecemos também os números sobre a violência no namoro e como é, aos olhos de muitos miúdos, tolerável que os namorados decidam o que as namoradas vestem, que seja usual controlarem os telemóveis e conversas uns dos outros ou até usar a shared location como uma prática habitual. As sementes do controlo e dependência começam aqui. 

Serve esta introdução para falar da imaturidade emocional com que a nossa sociedade continua a olhar para os relacionamentos amorosos. É comummente aceite em pessoas em lugares de responsabilidade e vistas como equilibradas que na vida amorosa possam ser de outra maneira. Ou seja, alguém dizer que não “aguentaria continuar a viver se o marido a deixasse” ou que “nunca deixaria a mulher ir passar um fim de semana com amigos” acontece regularmente. Quando digo imaturidade emocional estou a falar de relações que vivem sobretudo de controlo e dependência. Nada vem do nada, a violência que aparece nas notícias é um pico de um padrão de controlo que já lá estava, só escalou. Parece-me que precisamos de aprender as regras das relações entre adultos. Proponho que comecemos por aceitar que as pessoas têm o direito de nos deixar, de se quererem divorciar de nós. E nós podemos sobreviver a esse final de relação. Da mesma maneira como nós temos o direito de querer sair de uma relação. Com cuidado e respeito pelo outro, pode-se por fim a um casamento. 

Não quero tirar intensidade e sofrimento ao que é o final de uma relação. É uma dor tão grande que se sente no corpo, e pode acontecer mais do que uma vez e mesmo sendo diferente, continua a ser uma dor imensa. Mas uma coisa é eu sofrer, outra é eu achar que porque estou a sofrer, a outra pessoa não tinha o direito de acabar a relação comigo. 

Maturidade emocional é aceitar o risco inerente a entrar numa relação amorosa, saber tolerar o sofrimento como parte da experiência humana. É confiar que temos a capacidade de passar por fases muito difíceis. E é também não nos conformarmos em ficar agarrados a raiva e ressentimento para todo o sempre. Conheço muitas pessoas que dedicaram o resto da sua vida a odiar o seu “Ex” e a recrutar aliados para esta missão. Muitas vezes tentando que os principais aliados sejam os filhos de ambos (mas este será o próximo texto). Mesmo sem crianças em comum, qual o sentido de transformar tudo o que a relação teve de bom num falhanço? E de continuar a investir tanto neste ódio que nem lhe resta energia para se interessar por outra pessoa ou outras dimensões da vida?

E sabem por onde podemos começar todos? Da próxima vez que alguém lhe disser que a Filipa e o Miguel se vão divorciar, não pergunte imediatamente “De quem foi a culpa?”.

Psicóloga, Psicoterapeuta, Executive Trainer