Há cerca de um ano estava a fazer uma palestra para médicos internos de psiquiatria num hospital de Lisboa. Falávamos de Segurança Psicológica, Liderança, da importância da consistência entre o que se diz e o que se faz. E também do facto de mesmo dentro das profissões de ajuda, como médicos, psicólogos e enfermeiros, existirem muitas equipas onde o clima é de cortar à faca e as condições de trabalho no limite do impossível. Por isso potenciador, se não diretamente de doença mental, pelo menos de um sofrimento emocional crónico que pode levar a burnout ocupacional. Como caminhos de intervenção, costumo focar tanto nas mudanças organizacionais como nas que cada pessoa pode fazer individualmente. E disse uma palavra tão usada que já se tornou um lugar comum: “resiliência”, desenvolver a resiliência. Da plateia houve uma voz masculina que pediu para intervir e, num tom confrontativo, perguntou: «Quando é que a resiliência substituiu a resistência? Já ninguém fala de resistência». Fiquei em silêncio. Sim, a resiliência substituiu a resistência, a meu ver, da pior maneira. Depois da moda da “Saúde Mental nas Organizações” entramos na fase em que alguns gestores dizem até abertamente que agora o foco já não é a saúde mental nem o worklife balance, mas a resiliência para aguentar a pressão e o unbalance a que a carreira obriga. Podemos definir resiliência como capacidade de enfrentar e adaptar-se a situações difíceis, stressantes ou traumáticas sem desenvolver trauma, conseguindo lidar com a adversidade eficazmente. Claro que é um conceito muito apetecível e que, aparentemente, põe o foco e a responsabilidade de lidar com a pressão apenas nos trabalhadores. Semelhante às empresas que bombardeiam as pessoas com um volume de trabalho excessivo e uma comunicação e organização do trabalho deficitárias e depois como resposta oferecem cursos de mindfulness para que os colaboradores consigam viver com a pressão que a Organização provoca.
O despudor com que alguns gestores aceitam ser responsáveis por provocar trauma continuado aos seus trabalhadores mostra a leviandade com que aderiram à promoção da saúde mental nas suas Organizações apenas como uma campanha de marketing quando foi esta a mensagem que o mercado valorizou. Quem trabalha nesta área sabe que em muitos casos as iniciativas se limitam a carewashing, não são reais e não implicam o envolvimento das pessoas que realmente podem fazer a diferença cultural como os gestores de topo. São uma tentativa de melhorar a reputação da organização sem fazer as mudanças estruturais que seriam precisas.
A resposta que dei, depois de refletir uns minutos e agradecer verdadeiramente a pergunta foi que para mim a resiliência está, em muitos casos, ao serviço da resistência. Quanto melhor eu me conseguir organizar e responder perante a adversidade, mais capacidade tenho para procurar mudar a realidade em que vivo. Porque nem tudo pode e deve ser para acomodar. Às vezes é mesmo preciso resistir, e em grupo, que tem mais força.
Psicóloga, Psicoterapeuta e Executive Trainer