O Estado da Nação é, por excelência, o momento para fazer o balanço da ação governativa. E o retrato que hoje temos é o de um Governo insensível às dificuldades dos portugueses e incapaz de apresentar resultados que melhorem efetivamente a vida das pessoas.
Dois anos depois de chegar ao poder, tornou-se evidente a distância entre as promessas eleitorais e a realidade. Durante a campanha, Luís Montenegro apresentou soluções rápidas para problemas complexos, alimentando a ideia de que bastava vontade política para resolver décadas de desafios estruturais. Foi uma narrativa simples, eficaz do ponto de vista eleitoral, mas profundamente enganadora. Governar não se faz com slogans nem com varinhas mágicas.
Há três áreas que ilustram de forma clara o falhanço deste Governo. A primeira área que merece crítica é relativa à total ausência de uma visão para a modernização do país. Dois anos depois, continua a ser impossível perceber qual é o projeto do Governo para Portugal.
Em vez de enfrentar os verdadeiros problemas do país, o Governo prefere investir em agendas que alimentam a polarização política e procuram disputar o espaço da direita radical. Fá-lo por puro taticismo político, piscando o olho ao Chega em matérias que pouco ou nada contribuem para melhorar a vida dos portugueses.
Enquanto o acesso à habitação continua a deteriorar-se, os atrasos na execução do Plano de Recuperação e Resiliência comprometem investimentos essenciais para a modernização da economia. Em vez de concentrar esforços na valorização dos salários e na qualificação dos trabalhadores, o Governo opta por apresentar propostas de alteração à legislação laboral desnecessárias que fragilizam direitos conquistados e por lançar um debate sobre uma revisão constitucional que ninguém reclamava e que em nada responde às preocupações quotidianas dos cidadãos.
A segunda área é a educação. Se houve um grande défice estrutural que Portugal conseguiu combater nas últimas décadas foi o da qualificação dos portugueses. O investimento na escola pública e na formação ao longo da vida permitiu aumentar significativamente as qualificações da população e criar melhores condições para o crescimento económico e para a mobilidade social.
O caos instalado na correção dos exames nacionais do ensino secundário reflete, uma vez mais, a total falta de preparação deste Governo. Perante as graves falhas da plataforma, o ministro da Educação optou por se desresponsabilizar, desconsiderando alunos e famílias obrigados a rever os seus planos, comprometendo a igualdade de oportunidades que o Estado tem o dever de garantir.
A terceira área é a saúde. Em campanha eleitoral, Luís Montenegro prometeu resolver os principais problemas do Serviço Nacional de Saúde em apenas sessenta dias. A promessa envelheceu mal. As listas de espera aumentaram, realizaram-se menos cirurgias oncológicas, multiplicaram-se os encerramentos de urgências e continua a faltar resposta para milhares de portugueses que não conseguem ter acesso atempado aos cuidados de saúde. Por muito menos, no passado, assistimos à demissão de ministros da Saúde.
O problema deste Governo é que parece confundir comunicação com governação. Multiplicam-se anúncios, campanhas, conferências de imprensa e vídeos nas redes sociais, como se a perceção pudesse substituir a realidade. A comunicação e as redes sociais são uma ferramenta poderosa, mas não substituem políticas públicas eficazes. Ajudam a construir narrativas temporárias, mas não conseguem esconder indefinidamente a ausência de resultados.
O Estado da Nação mede-se pelos resultados que há a apresentar e pelo aumento da qualidade de vida dos portugueses. Dois anos depois do início do governo da AD, o balanço que se faz deixa muito mais perguntas do que respostas.
Eurodeputada e Vice-Presidente do Grupo S&D