sexta-feira, 15 mai. 2026

Eleições na Hungria: a Vitória da Democracia após 16 Anos de Orbán

Que os ventos democráticos que sopram na Hungria desde domingo tragam melhores condições de vida aos seus cidadãos.

As eleições do passado fim de semana na Hungria deram a vitória a Péter Magyar, colocando um ponto final a 16 anos de governação de Viktor Orbán. Esta vitória representa muito mais do que uma simples alternância política na Hungria. É, antes de tudo, um momento histórico para a democracia europeia, um sinal claro de que, mesmo sob pressão prolongada e tentativas claras de interferência estrangeira, os valores democráticos continuam vivos e capazes de prevalecer.

Durante as últimas décadas, Orbán e o seu partido Fidesz consolidaram uma agenda de inspiração autoritária, usando o controlo profundo do Estado através das chamadas ‘leis cardinais’. Reconfiguraram o sistema judicial, condicionaram os meios de comunicação social, alteraram regras eleitorais, concentraram influência sobre finanças públicas e políticas sociais. O poder judicial foi usado para pressionar e perseguir adversários políticos. Minorias, especialmente migrantes e a comunidade LGBTQIA+, tornaram-se alvos recorrentes de campanhas públicas e medidas discriminatórias.

Fê-lo com o apoio e alinhamento de figuras como Donald Trump e Vladimir Putin, assumindo uma atitude abertamente hostil à União Europeia e aos seus princípios fundadores. Este caminho colocou a Hungria numa trajetória de isolamento político a nível europeu e de séria degradação institucional e com níveis de pobreza inimagináveis.

O resultado destas eleições deve ser interpretado como uma vitória da democracia sobre a autocracia. A mobilização popular, com uma participação superior a 77%, demonstra de forma inequívoca o desejo de mudança e a rejeição de um modelo político baseado no controlo, na erosão das instituições e instauração de um clima de medo.

Já há oito anos, o relatório sobre o Estado de Direito na União Europeia, elaborado por Rui Tavares, denunciava os ataques estruturais ao sistema democrático húngaro. Desde então, a situação agravou-se, como pude comprovar enquanto relatora do mesmo Relatório em 2024. O congelamento de fundos europeus à Hungria não surge por capricho político, mas por preocupação institucional séria.

Esta também é uma vitória da oposição democrática, da sociedade civil e da juventude. Testemunhei, na primeira pessoa, este desejo de mudança, em setembro, na Marcha do Orgulho LGBTQIA+ em Budapeste que se transformou numa verdadeira marcha pela democracia, pela liberdade e um prenúncio do que viria a acontecer nas urnas.

Este resultado tem também implicações no panorama político europeu. O grupo político PfE, onde se integra o partido Chega, foi ‘criado’ por Orbán, perdendo assim um dos seus líderes e maiores ideólogos. Importa recordar que, na véspera das eleições, André Ventura fez um forte apelo ao voto em Orbán, acusando a União Europeia de ‘estrangular’ a Hungria, cumprindo uma tradição, já antiga, no apoio mútuo nas mais diversas eleições. Por exemplo, Órban apoiou publicamente André Ventura nas eleições presidenciais e o Chega nas eleições legislativas.

Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, estas eleições afirmam uma clivagem essencial entre democracia e autoritarismo. A oposição húngara demonstrou maturidade política ao concentrar esforços num candidato com mais hipóteses de vitória, mesmo com diferenças ideológicas importantes.

Curiosamente, Péter Magyar emerge do próprio sistema que agora desafia. Antigo membro do Fidesz, rompeu com o partido e assumiu, nos últimos anos, um papel ativo na denúncia de abusos, corrupção e violações do Estado de Direito, perpetuados pelo regime de Viktor Órban.

O futuro dirá se esta mudança se traduzirá numa transformação estrutural. Mas há sinais encorajadores: um candidato que se diz pró-União Europeia, pró-NATO e defensor do Estado de Direito vai liderar agora um país que, nos últimos anos, se afastou perigosamente destes pilares e liderou uma agenda antieuropeia que criou entropias graves no processo de decisão europeu.

A expectativa é clara: que a Hungria volte a ser um parceiro cooperante e comprometido com as decisões necessárias para uma Europa mais coesa e solidária. Episódios como o bloqueio húngaro da ajuda à Ucrânia, a que assistimos nos últimos Conselhos Europeus, não devem repetir-se.

No final, esta vitória é dos cidadãos húngaros. É deles o mérito de terem resistido, participado e escolhido um novo caminho. E é, também, um aviso poderoso para toda a Europa: a democracia pode ser fragilizada, mas não é facilmente derrotada porque em democracia há sempre alternativa. Que os ventos democráticos que sopram na Hungria desde domingo tragam melhores condições de vida aos seus cidadãos.

Eurodeputada e Vice-Presidente do Grupo S&D