Os fenómenos naturais extremos têm-se tornado cada vez mais frequentes e tudo indica que continuarão a intensificar-se no futuro. Preparar-nos para as alterações climáticas não é uma opção: é uma obrigação. Prevenir, antecipar e responder com eficácia é hoje uma exigência política e moral.
As tempestades que se abatem sobre Portugal deixam um rasto de devastação assustador. O cenário é desolador e o sofrimento das populações incalculável. Casas destelhadas, carros esmagados por árvores, empresas destruídas e, com elas, postos de trabalho comprometidos. Milhares de pessoas ficaram sem eletricidade, água ou sequer um teto. Uma palavra resume tudo: calamidade.
Momentos como estes exigem coragem para decidir, rapidez na ação, meios no terreno e uma coordenação exemplar das entidades públicas. O que não se exige, nem se aceita, é propaganda. As pessoas não precisam de vídeos institucionais; precisam de respostas, apoio e respeito.
Perante esta realidade, o Governo revelou-se lento na declaração de calamidade e desastrado na comunicação. A divulgação de um vídeo de propaganda protagonizado pelo ministro Leitão Amaro, entretanto retirado após forte contestação pública, é a todos os níveis inaceitável. Enquanto milhares enfrentavam o desespero, o Governo escolheu a encenação em vez da ação. Se a competência falha, exige-se pelo menos sensibilidade humana.
Nas primeiras horas da manhã de 28 de janeiro, o cenário no terreno era de horror: destroços por todo o lado, árvores caídas, populações isoladas e um sentimento generalizado de abandono. Não houve uma presença visível da Ministra da Administração Interna para falar com os autarcas, tranquilizar as populações ou esclarecer quais os passos da Proteção Civil. Mais tarde, foi referido que o Governo estava a «trabalhar na invisibilidade». Invisível, de facto, foi a resposta política quando ela era mais necessária.
Com centenas de milhares de pessoas sem eletricidade, o Governo podia, e devia, ter acionado de imediato o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, garantindo o envio de geradores e bombas de água, para além de apoio na coordenação logística. Preferiu não o fazer, alegando que existiam meios suficientes no país. A pergunta impõe-se: onde estão esses meios quando as pessoas deles tanto precisam?
A gestão desta crise é, infelizmente, insuficiente, descoordenada e pessimamente comunicada.
Em contraste, o papel dos autarcas é exemplar. São eles o rosto da angústia das populações, mas também o rosto da ação, da proximidade e da solidariedade. A resposta local e a mobilização das comunidades demonstram, uma vez mais, que quando o Governo vacila, são as pessoas e o poder local que seguram o país.
Não podemos continuar a ignorar as alterações climáticas nem a responder a catástrofes anunciadas com improviso e propaganda. Preparar o futuro exige responsabilidade, planeamento, investimento e liderança. Agora o que é preciso é reunir esforços para apoiar as populações, coordenar a reconstrução e reerguer os territórios afetados.
Eurodeputada e Vice-Presidente do Grupo S&D