Presidenciais: Mudar de vida?

Por contraste com os restantes candidatos, Ventura parece estar a conquistar o país. Verdade seja dita, não se trata apenas dos méritos do candidato. Trata-se sobretudo de contrastá-los com as várias cabeças do mesmo animal que, como no mito, se agitam face a quem lhe perturba o sono.

No grego antigo, há duas palavras que correspondem ao que hoje entendemos por regime. Uma é politeia, que os romanos traduziram por res publica e que alguns traduzem por «constituição» ou «regime constitucional». Outra é diaita, um termo curioso que circulava tanto no direito como na medicina, e que alude ao modo de vida, às práticas quotidianas, à maneira como se vive no dia a dia. Neste sentido, diaita refere-se directamente à dieta, ao exercício diário e ao regime alimentar. Vem isto a propósito das eleições presidenciais que presentemente vivemos e dos alertas, produzidos pelos comentadores do costume, de que a candidatura de André Ventura, no entusiasmo que tem suscitado, é um sinal preocupante para o regime.

Por contraste com os restantes candidatos, Ventura parece estar a conquistar o país. Verdade seja dita, não se trata apenas dos méritos do candidato. Trata-se sobretudo de contrastá-los com as várias cabeças do mesmo animal que, como no mito, se agitam face a quem lhe perturba o sono. Estas cabeças são hoje a triste expressão do que resta a um sistema velho e anquilosado para oferecer. São rostos que vão desde o mais explícito representante da estrutura clientelar dos interesses de sempre até a uma tentativa chique de os apresentar em versão regenerada, pavoneada pelo jogging matinal, passando pelas habituais diatribes da extrema-esquerda do trabalho contra o capital, em versão original ou pós-moderna, ou pelos piedosos lugares comuns da equidistância entre esquerda e direita.

Diante deste insólito desfile déjà vu, Ventura é o único que, fora da cartilha costumeira, diz o que tem a dizer. Daí certamente as paixões que tem suscitado, quer de adesão quer de rejeição. Começou por dizer, sem medo nem hesitações, não ser o candidato de todos. E não é. É o candidato de quem, ao fim de meio século de um duopólio que tornou o país refém de partidos indiscerníveis e acomodados, aspira a mudar de vida e romper com o sistema. Poder-se-ia falar, como querem alguns, de romper com o regime, se por regime se entender não o respeito pelo pluralismo, pelo direito e pelas regras, mas a «dieta», o regime alimentar e de vida que nos tem sido servido e imposto como daí decorrente.

Mas significará o desejo de mudança inspirado por Ventura uma espécie de niilismo destruidor? Representará a candidatura de Ventura um entusiasmo incompatível com o cultivo de virtudes políticas tradicionais como a temperança e a prudência? Creio que não. Quem invoca tais virtudes não deveria esquecer que, quando mencionadas nos textos antigos de Platão ou Aristóteles, elas aparecem sempre em conjunto com a coragem e a justiça. É disso que o nosso sistema político, desde há cinquenta anos, se tem esquecido. De nada serve apelar à temperança num sistema que se habituou a tratar os próprios cidadãos injustamente, a afundá-los em precariedade e a vender o seu país. Que significa moderação, afinal, quando se tornou normal despojar as pessoas das suas próprias vidas, fazendo desaparecer o seu mundo e tornando-as estranhas na sua própria terra?

De nada serve, também, apelar à prudência sem coragem. Fazê-lo, é apelar a uma resignação sem sentido. Nos dias que vivemos, a candidatura de Ventura é sobretudo expressão de que uma coisa não pode existir sem a outra. Por causa disso, apoiar André

Ventura está muito longe de significar a vertigem de um salto para um vazio opaco e desconhecido. Na leitura que faz da figura presidencial, não se trata de fazer o regime entrar em aventuras inesperadas. Trata-se de perceber que o nosso sistema constitucional tem possibilidades por desenvolver e que, na anestesia frustrante da situação em que nos encontramos, um Presidente corajoso não pode ter medo de explorá-las. Ao contrário de todos os outros candidatos, que apostaram nas platitudes habituais, André Ventura esclareceu, dentro dos constrangimentos mediáticos da campanha, o modo como se poderia encontrar na função do Presidente uma solução possível para, no nosso ambiente político, mudar de vida. Fê-lo com coragem. Resta saber se também nós teremos coragem para o acompanhar.