segunda-feira, 09 mar. 2026

O triunvirato socialista e as presidenciais

Fará sentido depois de tudo – das ambições desmesuradas de Sócrates, das fraquezas complacentes de Seguro, do maquiavelismo calculista de Costa – abrir novamente essa porta, num quadro em que a direita é maioritária?

No ano passado, completaram-se duas décadas desde que o último Presidente da República socialista, Jorge Sampaio, entregou o poder a José Sócrates, depois de dissolver a assembleia parlamentar estável que sustentava uma solução governativa viável. A partir da Presidência da República, o PS reforçava novamente a rede de relações clientelares a que habituara militantes e apaniguados – nunca verdadeiramente desaparecida – e voltava a invadir, como em maré cheia, todos os poros do Estado. Olhando para os acontecimentos que desde então se sucederam, dir-se-ia que o PS se entregou, nas suas lideranças, às personalidades típicas daqueles triunviratos que, na antiguidade clássica, se sucediam como sintomas da crise republicana.

Surgiu primeiro José Sócrates, a personalidade arrogante que, qual tirano da antiguidade retratado por Platão, se apresentava como «animal feroz». É a personagem prepotente que nenhum correligionário arriscava contestar, mas todos iriam renegar, como se tivesse agido sozinho, logo que a ambição desmedida e o inebriamento do poder o tivessem precipitado em desgraça. Apareceu depois António José Seguro, a personalidade fraca e titubeante que contrastava com a anterior. É aquela personagem intermediária que separa duas outras mais fortes e ousadas: a personagem que representa o vazio fugaz que procura fazer esquecer o passado para poder repeti-lo no futuro. E veio, depois, António Costa. Tratava-se da personagem maquiavélica que não teria escrúpulos em apunhalar a anterior na ocasião propícia para tomar o poder e retomar ilusões passadas, restaurando o ciclo.

O último triúnviro, António Costa, tentou, de facto, encerrar o ciclo da governação socrática com a fuga para a frente das transformações que conhecemos. Até então, o nosso sistema político fora baseado em alternância sem alternativa: uma sucessão indefinida de Governos em que PS e PSD, alternando-se, se tornavam cada vez mais indiscerníveis. Ambos tinham aceitado até então a regra informal de viabilizar no Parlamento o Governo de quem ganhasse as eleições. Tinham-no até Costa, em 2015, acossado pelas consequências da derrota eleitoral, se aliar à extrema-esquerda para derrubar Passos Coelho e governar no seu lugar. Foi a ocasião em que se começaram a fazer os primeiros ensaios da narrativa fantástica, patrocinada pela extrema-esquerda e já com muitas colaborações, sobre a necessidade de uma generosa e grande frente antifascista.

A Geringonça, arquitetada por Costa há dez anos, teve um duplo propósito. No plano pessoal, transformar a derrota em vitória e salvar a própria carreira política. No plano político, transformar o PS no Partido hegemónico em Portugal. A partir de então, o PS dominaria em qualquer circunstância. Ou o PS governaria apoiado na extrema-esquerda, cedendo-lhe a influência cultural imprescindível ao alastramento das suas causas. Foi o governo que tivemos entre 2015 e 2019. Ou governaria sem maioria parlamentar, num governo minoritário viabilizado pelo medo que todos tinham das consequências de o derrubar. Foi o que aconteceu entre 2019 e 2022. Ou governaria conquistando uma maioria absoluta improvável, fruto do medo do desconhecido, da fraqueza do adversário e da inexistência de outras saídas. Foi o que sucedeu de 2022 a 2024. Ou, esgotando as soluções governativas, deixaria ao PSD um Governo minoritário errático, arrastado como um cadáver adiado, sem horizonte de futuro nem ímpeto transformador, enquanto não se proporcionasse nova ocasião de derrubá-lo. É, mais ou menos, o que temos tido desde então.

É neste quadro muito simples – e não numa espécie de luta apocalíptica contra tenebrosas ameaças à democracia – que a questão das atuais eleições presidenciais se coloca. Por muito que António José Seguro, por boas razões estratégicas, fuja do termo «socialismo» como o diabo da cruz, o sentido político da sua candidatura presidencial é só um: reavivar o sonho do PS da hegemonia socialista que o crescimento exponencial do Chega, e a consequente nova maioria eleitoral de direita, oferece condições para travar. No atual quadro político, bem se poderá ter dúvidas sobre o estilo de Ventura e achá-lo polémico. Ou pensar que tem uma visão presidencialista da função presidencial, distinta da prática que tem sido habitual. Ou dizer que a direita conservadora, nacional e popular que representa é algo muito diferente do centrismo civilizado e urbano, mais ou menos social-democrata, mais ou menos liberal, que a esquerda se habituou a tolerar e confundir com uma direita política. Tudo isso é verdade. Mas a escolha é só uma e é em alternativa.

Nesta segunda volta das presidenciais, depois de todas as considerações, o problema que se coloca a quem não estiver alinhado com o legado do triunvirato socialista é simples: na atual conjuntura, fará sentido aceitar de volta o projeto político de fazer do PS um partido hegemónico? Fará sentido depois de tudo – das ambições desmesuradas de Sócrates, das fraquezas complacentes de Seguro, do maquiavelismo calculista de Costa – abrir novamente essa porta, num quadro em que a direita é maioritária? E abri-la, por ironia, incorporando a narrativa delirante da luta contra o fascismo; uma narrativa que a extrema-esquerda, sem grandes preocupações de coerência e sofisticação teórica, desde sempre invariavelmente se habituou a ostentar contra a direita? É surpreendente ver tantos ignorarem a pergunta, acotovelando-se para bramir mais alto que os outros o seu voto em Seguro em nome de pergaminhos antifascistas. Mas não deixa de ser também eloquente o silêncio de quem, mais sóbrio e responsável, compreende bem o sentido político dessa histeria coletiva.

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