sexta-feira, 12 jun. 2026

Na espuma dos feriados

E essas datas não pertencem a ninguém, são ditadas pela consciência geral, precisamente para não existir uma apropriação partidária e para conseguirmos pensar para além do imediato. Por isso, é fundamental suspender, nesses dias, o acelerado ruído quotidiano e lembrar a pertença a uma história maior do que nós próprios.

Cada vez mais, datas entendidas durante décadas como momentos marcantes passaram a ser alvo de discórdia, revelando muito sobre os nossos tempos, emboscados pela polarização da sociedade e pela politização da história. No entanto, os feriados nacionais não existem para satisfazer agendas circunstanciais. Existem pela necessidade de marcos comuns, de dias capazes de nos recordar quem fomos, o que superámos e aquilo que, apesar das diferenças, ainda partilhamos enquanto comunidade histórica.

No passado dia 23 de Abril, celebrou-se o Dia Mundial do Livro, marco definido pela Unesco por se tratar, alegadamente, do dia da morte de William Shakespeare e de Miguel de Cervantes, ambos no ano de 1616. Contudo, como Espanha substituiu o calendário Juliano pelo Gregoriano em 1582, ao contrário de Inglaterra, sabemos hoje que tais dias não são coincidentes. Nada importa, porque está destinado à reflexão. Assim como os feriados, verdadeiros estados de espírito que nos obrigam a não dar nada por adquirido, a reconhecer a dificuldade da conquista de direitos e a apreciar o que temos. São parte de um país e formam a sua identidade, diferenciadora e distintiva.

É essa a substância do tempo e enquanto não aceitarmos isso, deixaremos de ser quem somos. Ao assinalarmos o 10 de Junho, o 5 de Outubro, o 1.º de Dezembro ou o 25 de Abril, não se exige uma unanimidade ideológica sobre todos os episódios da História. Ao invés, reconhecemos um país feito de continuidades, ruturas, conquistas, erros, conflitos e reconciliações. Não se pode, por isso, apagar capítulos inteiros apenas por serem hoje objeto de disputa política.

E essas datas não pertencem a ninguém, são ditadas pela consciência geral, precisamente para não existir uma apropriação partidária e para conseguirmos pensar para além do imediato. Por isso, é fundamental suspender, nesses dias, o acelerado ruído quotidiano e lembrar a pertença a uma história maior do que nós próprios. Algo iniciado antes das nossas opiniões e que continuará depois delas.

É legítimo discutir interpretações históricas, tal como pode ser saudável revisitar criticamente o passado. Porém, se cairmos na tentação contemporânea de medir todos os nossos séculos exclusivamente pelos critérios políticos do momento, cometemos o grave erro de não compreender um processo longo, complexo e, muitas vezes, contraditório, onde um povo aprende a encontrar-se.

Ao respeitarmos os nossos momentos mais simbólicos, sem os deturpar e sem os retirar do seu contexto, estamos a proteger as novas gerações e a lembrar que Portugal é anterior aos partidos políticos, aos governos e às modas ideológicas.

Também por esse motivo, destaco, pela originalidade que mantém bem vivas certas celebrações, a forma como Cascais passou este 25 de Abril: de madrugada, pela voz de Cuca Roseta, no Forte de Santo António da Barra, perante uma multidão incrível. Um país não sobrevive apenas pela economia ou pelas instituições. Prevalece pelas memórias que escolhe preservar.

Escritor e Gestor Público