A eleição de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas constitui uma oportunidade rara para afirmar uma visão distinta do mundo, num dos momentos mais exigentes da história recente da organização.
Num tempo marcado por guerras, tensões geopolíticas crescentes, radicalização de discursos e enfraquecimento das instituições multilaterais, os Estados-membros reconheceram em Portugal uma voz moderada e capaz de construir pontes, sendo escolhido logo à primeira volta para a sua quarta participação neste órgão, depois de 1979-1980, 1997-1998 e 2011-2012.
A tradição multilateralista portuguesa, que privilegia o diálogo e o direito internacional nesta grande instabilidade global, não terá sido alheia à votação, trazendo consigo uma responsabilidade acrescida e imperdível, após quinze anos de ausência.
Perante a contradição existente na ONU desde a sua fundação, onde a Carta das Nações Unidas proclama a igualdade entre os Estados e o Conselho de Segurança permanece numa arquitetura que consagra uma desigualdade evidente entre os seus membros permanentes e os restantes países, Portugal não deverá limitar-se a opinar sobre a gestão de crises e terá de resistir à lógica das grandes potências, mostrando alternativas quando a força quiser sobrepor-se à razão ou o poder subestimar o direito.
Durante décadas, habituámo-nos à ideia de uma ordem internacional previsível, sustentada por regras, tratados e consensos mínimos. Hoje, quando a imprevisibilidade domina, o bom senso português será útil, podendo aproveitar os meses em que exercerá a presidência rotativa para promover debates sobre assuntos estratégicos, a exemplo do que fez no passado acerca de Timor-Leste, das questões africanas relativas à paz e à segurança, em especial em países lusófonos e no continente africano em geral, ou no incentivo à cooperação entre a ONU e a União Africana.
E Portugal poderá continuar a vincar a diferença em variados temas. Para além de não se compreender como a língua portuguesa, a quarta língua materna mais falada do mundo, continua sem estatuto oficial nas Nações Unidas, o exemplo das autarquias portuguesas, nas suas ligações entre países, comunidades, culturas e sensibilidades distintas, deverá ser mencionado e incentivado, por constituírem espaços privilegiados de sã convivência na multiculturalidade.
Cascais é uma referência incontornável dessa realidade e um dos segredos para o seu sucesso reside precisamente na diversidade. No seu território, vivem cidadãos oriundos de 144 nacionalidades diferentes que contribuem diariamente para a construção de uma comunidade partilhada.
Ao respeitar e valorizar essa pluralidade, reconhecendo que integra a sua identidade, Cascais, tal como outras autarquias, consolidam a democracia e mostram como os espaços locais ajudam a solucionar dificuldades internacionais, numa experiência singular a oferecer ao mundo. Num Conselho de Segurança marcado pelo bloqueio entre as grandes potências, essa vocação será mais necessária do que nunca.
Escritor e Gestor Público