sexta-feira, 07 ago. 2026

Apesar de Trump

Apesar de Trump. Apesar da FIFA. Apesar da política. Porque os governos passam, as fronteiras mudam e os campeonatos terminam. E existirá sempre uma criança, que correrá pelas ruas atrás de uma bola.

Há quem organize Campeonatos do Mundo para conquistar prestígio. As pessoas acompanham apenas para serem felizes. Talvez, por isso, o futebol continua a ser um dos fenómenos mais extraordinários da Humanidade. Durante noventa minutos, com ou sem pausas comerciais, milhões de pessoas suspendem as preocupações do quotidiano, esquecem fronteiras, diferenças políticas, crises económicas e guerras, para partilharem uma emoção comum. Talvez, por isso, o futebol é tão apetecível para o poder político.

Quem organiza eventos desportivos mundiais nunca organiza apenas um torneio. Formula uma narrativa sobre si próprio. Foi assim em Berlim, em 1936, quando os Jogos Olímpicos serviram de palco à propaganda nazi. Foi assim no Qatar, onde o brilho dos estádios quis atenuar o debate sobre direitos humanos. Dentro deste novo conceito de sportswashing, o prestígio do desporto é utilizado para suavizar reputações, reforçar lideranças e conquistar legitimidade.

Este Mundial não escapará a essa discussão. Desde o primeiro dia, sucederam-se episódios que colocaram a política no centro da competição. Desde o árbitro somali Omar Artan, considerado um dos melhores de África, ter sido impedido de entrar nos Estados Unidos devido às restrições migratórias impostas, à seleção do Irão ter sido obrigada a instalar a sua base no México, passando pela interferência direta de Donald Trump em relação ao castigo aplicado a um jogador da seleção americana, muitas certezas ficam sobre a falta de independência das decisões desportivas. Para além da anedota da própria FIFA ter criado um ‘Prémio da Paz’ para o atribuir ao presidente norte-americano.

Tudo isto aconteceu e o Mundial ainda não terminou. Mas ocorreu algo muito mais importante, a bola começou a rolar. E, nesse instante, o campeonato deixou de pertencer por completo aos dirigentes. Passou a pertencer aos povos e essa é a beleza do futebol.

No meio de todas estas polémicas, três seleções que se expressam em português, oriundas de três continentes, ultrapassaram a primeira fase da competição. Três histórias profundamente diferentes, unidas por uma língua que continua a demonstrar uma impressionante capacidade de aproximar povos separados por oceanos, juntando milhões no mesmo sentimento. Isto também é futebol e não interessa se não continuam em prova.

O adepto iraniano não festeja Trump. O adepto cabo-verdiano não festeja Gianni Infantino. O adepto português não festeja a Casa Branca. Celebram a infância e quem os ensinou a amar futebol. E partilham essa alegria, revelando como o soft power conquista aquilo que a força nunca conseguirá, a admiração espontânea dos povos.

Apesar de Trump. Apesar da FIFA. Apesar da política. Porque os governos passam, as fronteiras mudam e os campeonatos terminam. E existirá sempre uma criança, em Lisboa, no Rio de Janeiro, na Praia, em Teerão, na Palestina ou em qualquer outro lugar do mundo, que correrá pelas ruas atrás de uma bola. Apesar de Trump.

Escritor e Gestor Público