terça-feira, 09 jun. 2026

Um país com o Futuro

Em Portugal, acumularam-se programas, planos e intenções. Mas a experiência mostra que o essencial tem falhado. A máquina pública arrasta-se entre burocracias, resistências internas, escassez de meios e, sobretudo, falta de direção clara.

Portugal vive absorvido no presente mas tarda a pensar o que vem a seguir. E esse atraso no planeamento não é neutro recaindo, sobretudo, sobre os mais qualificados, que são hoje mais preparados do que qualquer geração anterior. Entre 2000 e 2021, a percentagem de jovens com ensino superior passou de 11% para 36%. Os mais jovens chegam ao mercado de trabalho com formação diferenciada, competências técnicas sólidas e experiência internacional e, paradoxalmente, encontram instabilidade, salários baixos e um acesso cada vez mais difícil à habitação. Muitos permanecem em casa dos pais não por escolha, mas por impossibilidade. Não é um detalhe sociológico mas sim o resultado de opções difusas e de prioridades mal fixadas.

Falar do futuro requer ação com método. Investir na educação, valorizar o ensino técnico, criar condições para fixar o talento, estabilizar as regras no trabalho, enfrentar com seriedade a questão da habitação, tudo isto é conhecido, repetido, consensual. O problema não está no diagnóstico. Está na execução. Em Portugal, acumularam-se programas, planos e intenções. Mas a experiência mostra que o essencial tem falhado. A máquina pública arrasta-se entre burocracias, resistências internas, escassez de meios e, sobretudo, falta de direção clara. Não faltam ideias. Falta continuidade, exigência e compromisso com aquilo que já se sabe ser necessário.

A política, por seu lado, permanece demasiado presa ao imediato. Governa-se para responder ao dia de hoje, raramente para preparar o de amanhã. Ora, governar é escolher e escolher implica aceitar custos presentes para benefícios futuros. As gerações seguintes não têm voz direta no debate, mas suportarão as consequências das decisões atuais. E essas decisões tocam domínios concretos como a sustentabilidade das finanças públicas, a qualidade dos serviços, a transição energética e a coesão social. Cada adiamento conta. Cada medida incompleta limita o futuro.

Portugal não é um país sem meios. Tem recursos, instituições e conhecimento acumulado. E tem uma sociedade mais informada, mais exigente. O que persiste é um desfasamento incómodo entre o que se anuncia e o que se faz.

Exige-se, por isso, clareza de prioridades e um critério simples: avaliar cada política pelo seu efeito duradouro, não pelo rendimento político imediato. Isso implica concentração de esforços, menos reação e mais direção. Implica também compromissos públicos verificáveis, mecanismos de acompanhamento e uma maior abertura à participação da sociedade civil, incluindo os mais jovens. Menos improviso significa mais preparação, melhor conhecimento dos problemas e maior rigor na execução. Mais consistência significa previsibilidade para os cidadãos, as empresas e as instituições. E sem previsibilidade não há confiança; sem confiança não há desenvolvimento.

Um país que pensa o futuro não se mede pelas intenções que proclama, mas pelas condições que cria. Condições para trabalhar com dignidade, viver com estabilidade e escolher ficar. Isso exige oportunidades reais, uma economia com capacidade de crescimento, serviços públicos que funcionem e um ambiente político estável e credível. No fundo, exige que o esforço tenha retorno, que o mérito encontre lugar e que o futuro deixe de ser uma promessa adiada.