Há poucos dias, vi uma entrevista do autor russo-britânico Konstantin Kisin sobre a despesa com o modelo social europeu. Nela, recordava que a Europa representa 12% da população mundial (número falacioso, somos ainda menos), 25% do PIB mundial (estamos ligeiramente abaixo) e 60% da despesa global em proteção social (não existe dado de instituições internacionais que se aproxime deste valor). O número mais credível de que dispomos tem quase 15 anos e é do working paper 1/2013 da Comissão Europeia que diz “a UE representou cerca de 40% dos gastos públicos mundiais com proteção social”.
Pouco importa, a mensagem está passada: a Europa tem pouca gente e produz relativamente pouca riqueza para tanta despesa. Ainda por cima, uma má despesa. Nessa entrevista de janeiro de 2026, Kisin diz que o leitor “se acomodou e se tornou muito preguiçoso”, justificando isso com o sonho de todos os antieuropeístas – o senhor leitor, europeu, transformou o seu conforto na nossa irrelevância. Como se atreve!?
O argumento 12-25-60 é provocativo e, cumprindo o seu papel estupidificante de câmara de eco, as redes sociais entusiasmam-se. Além das mais de 900 000(!) visualizações, os comentários são, como sempre, a parte mais entretida. Vejamos.
Para o grande filósofo matt_in_ra “os homens fracos estão a criar tempos difíceis” e, vejam bem, serão os “filhos da geração Z os homens fortes que tornarão a Europa grande novamente”. Ou seja, a minha geração – Millennials – é frouxa e será a geração dos meus alunos de licenciatura a salvar-nos. Vou-lhes passar a mensagem. Temos ainda o clássico recurso à citação de um autor que nunca disse aquela frase. Segundo o grande citador de autores que nunca disseram essas frases, Robert Michaels: «Isso lembra-me a famosa citação de Ayn Rand: “Pode-se ignorar a realidade, mas não se pode ignorar as consequências de ignorar a realidade”». Touché! Por falar em francês, o profeta Jack Fretwell escreve «This belle epoch is over». Perdoem-lhe o francês. Por seu turno, KP Vinod, fala-nos das «“Obsessões de luxo” – seguro, confortável, sem leme – e envolvidos em ideias malucas – acertaram em cheio, exatamente!» Cuidado com este almirante. Por fim, o grande politólogo tempus_luxury_watch, recorda que este é «precisamente» o ponto que Trump tem feito sobre o futuro do Ocidente e que «se quisermos sobreviver, devemos mudar de rumo e seguir o seu exemplo». Ámen.
Eu resumo as acusações que lhe foram feitas. Ora, segundo a visão de Kisin e dos seus idólatras, o leitor e a sua mania de viver confortável tornaram-no mole, ignorante, obsessivo por luxo, mal-agradecido a Trump e pouco fluente em francês.
Por isso, olhando para a realidade portuguesa e para os dados mais recentes da Segurança Social (dezembro 2025), eu sugiro que os mais de 2 milhões de pensionistas parem de mandriar e voltem ao ativo – a pensão de velhice está a amolecê-los. Sugiro que se curem as mais de 180 mil pessoas a receber prestações por doença – problemas físicos e mentais não são condicionantes para trabalhar, olhem para Trump. Os mais de 1 milhão de portugueses a receber abono de família estão a contribuir para mais uma geração de homens fracos que, mal nasceram, já estão ao colo do Estado. Sugiro, enfim, aos mais de 240 mil idosos a receber complemento solidário, aos mais de 176 mil beneficiários da prestação social para a inclusão e aos mais de 18 mil cuidadores informais que reflitam sobre as suas vidas e no mal que nos estão a fazer. Larguem a vossa obsessão por bens de luxo. A belle epoch já acabou. Não leram?
Eu sei, eu li. Eu sei que sou millenial e que a minha geração é feita de homens fracos e que serão os meus alunos a salvar-nos. Sei também que a mensagem de Kisin é uma chamada de atenção para o mundo no qual vivemos e para a insustentabilidade do modelo 12-25-60 europeu, mesmo que os números sejam mentirosos. Kisin está, embora enganosamente, a alertar para os riscos de não se pensar a competitividade europeia no médio prazo. Tenho feito esse exercício, semanalmente, nos últimos anos. Mas, nada temam. Como disse o historiador Oswald Spengler, «a história mostra que os Estados sociais colapsam inevitavelmente». Ou talvez ele tenha dito que eram as civilizações que implodiam fatalmente. É melhor chamarmos o tal citador de autores que nunca disseram essas frases para esclarecer.
Jorge Botelho Moniz, Professor Associado, Universidade Lusófona