quarta-feira, 13 mai. 2026

Um ano sabático à deriva. No silêncio do Atlântico

Tinha escalas previstas na Madeira, por várias ilhas nas Canárias e também de Cabo Verde. O que não estava nos planos era uma tempestade. A II e última parte da aventura de Domingas Mendia na Travessia do Atlântico.

Na primeira crónica [publicada na ed. de 3 de abril] falei da preparação para atravessar o Atlântico. Mas foi no dia 8 de novembro, quando levantámos velas no Faial rumo ao Brasil, que a aventura começou verdadeiramente. Sabia que vinha aí um caminho longo: paragens, horas infinitas no mar, pessoas novas e, sobretudo, tempo. Muito tempo para pensar, escrever e tirar partido de tudo.

A travessia não seria direta. Tínhamos escalas previstas na Madeira, por varias ilhas nas Canárias e também de Cabo Verde. O que não estava nos planos era uma tempestade três dias depois de partirmos.

Estava a meio do meu turno da meia-noite, a cerca de 40 milhas náuticas da Madeira, quando vi luzes no horizonte. Avisei a tripulação, mas ninguém pareceu alarmado, pois não existiam previsões preocupantes. No entanto, horas depois, com os primeiros trovões visíveis, o capitão Norberto Serpa saiu para o cockpit, avaliou a situação em silêncio e chamou o Sandro, outro skipper experiente. Foi nesse momento que tudo mudou.

A chuva tornou-se intensa, a ondulação de sete metros e o vento ultrapassava os 60 nós (140 km/h). Fui para dentro do barco e deitei-me no chão, em silêncio, para tentar não enjoar e sobreviver a tudo o que estava a acontecer. Eu rezava, com um medo que nunca tinha sentido. Com os braços e pernas cravados nos quatro cantos, lutava para não sair do sítio, enquanto agarrava a Madalena (outra tripulante) com toda a força, como se ela fosse a única coisa que me impedia de ser levada pelo mar. Apenas conseguíamos ouvir barulhos violentos, cabos a partirem, ondas a passar por cima do barco e velas quase a chegar ao mar. Lá fora, o mar parecia engolir-nos, e a luta era constante. O capitão tentava baixar a vela grande, e o Sandro mantinha o leme com uma precisão impressionante. Foram horas de tensão até que, finalmente, chegámos à marina da Quinta do Lorde, na Madeira. Depois de algumas horas em terra e de toda a tripulação acalmar, o Norberto disse a todos que tinha sido a pior tempestade que passou no mar. Afinal foi a famosa tempestade Cláudia, que também tanto devastou em Portugal.

Depois disso, tudo abrandou. Ficámos alguns dias na Madeira e seguimos para as Canárias. O mar acalmou, os dias suavizaram-se e os golfinhos passaram a ser companhia constante.

A vida a bordo ganhou uma rotina simples: leitura, música, cozinhar, tentar fazer exercício e, acima de tudo, longas conversas. Estranhamente, os dias passavam rápido e eram bastante preenchidos.

No dia 10 de janeiro, partimos de Cabo Verde, depois de um mês em várias ilhas naquele arquipélago. Era o início da verdadeira travessia do Atlântico. Curiosamente, não senti o turbilhão de emoções que esperava. Nada de medo ou euforia, apenas uma felicidade tranquila e a vontade de viver cada momento.

Foram dez dias em alto mar sem qualquer tédio. Passava horas a olhar para o oceano, a tentar encontrar diferenças naquela imensidão, mas tudo parecia igual. Muito azul. Infinito azul. Raramente víamos barcos, e cada um que surgia era motivo de celebração.

Pescávamos dourados e atum, víamos peixes voadores, e ao pôr do sol os golfinhos voltavam, deslizando junto à proa. Pequenos momentos como esses tornaram-se os mais especiais.

Os banhos eram raros. Sendo oito a bordo, a água doce era preciosa. Adaptámo-nos a banhos de balde com água salgada. Bastante simples, mas suficientes para nos sentirmos limpos e frescos. À medida que nos aproximávamos do Brasil, tudo mudou: a água ficou mais quente, o vento mais suave, o céu mais limpo. Os amanheceres e entardeceres tornaram-se cada vez mais impressionantes. Sempre que chovia, era motivo de celebração: finalmente podíamos tomar banho sem culpa nem contabilidade e com sensação de abundância. Aproveitávamos cada gota como se fosse um luxo raro, livres dos rigorosos 2-3 litros que eram recomendados pelo capitão.

As vigias noturnas tornaram-se o meu momento preferido. Duas vezes por noite, duas horas cada. Atenta ao horizonte, mas quase sempre sozinha. Deitava-me no cockpit a ver as constelações, a ouvir o vento e o mar. Em noites de lua nova, podíamos ver bioluminescência, que são microrganismos que produzem luz própria e a fazem a água brilhar. Esta era a altura que tinha para mim e para interiorizar tudo aquilo que estava a viver.

No dia 17 de janeiro, cruzámos o Equador. Celebrámos com pequenos rituais, desejos lançados ao mar e um brinde de whisky ao oceano.

Mas o momento mais marcante foi parar no meio do Atlântico para mergulhar. Sem terra à vista, com pouco vento e sobre mais de 4000 metros de profundidade. Rodeados apenas por azul escuro e uma luminosidade que vinha do fundo do mar. Havia medo do invisível, do desconhecido, mas também uma liberdade impossível de explicar. Foram dez minutos que ficaram para sempre, porque não é todos os dias que se mergulha no meio do Oceano Atlântico.

Retomámos a viagem e o dia 19 de janeiro marca a nossa chegada a Fernando de Noronha. Fomos acompanhados por golfinhos rotatórios (uma espécie de golfinho), até ancorarmos às 15h. Ainda festejámos antes de sair do barco. Quando finalmente pisei terra, as pernas estavam pesadas, quase irreais, mas a sensação foi indescritível e não durou até me habituar. Seguimos diretos para a praia. Nadámos durante horas, vimos o pôr do sol e brindámos com caipirinhas de maracujá.

E naquele momento ficou concretizada a minha travessia do oceano.