segunda-feira, 14 set. 2026

"Vivo com medo na minha própria cidade": cidadã de Ceuta confronta polícias perante tensão migratória

Um vídeo divulgado pela imprensa internacional mostra uma mulher a protestar perante agentes da polícia e a questionar a resposta das autoridades. Ceuta continua a lidar com as consequências da vaga migratória que levou milhares de pessoas à cidade.

Não se pode viver assim, estou farta do que se passa aqui.

É desta forma que uma cidadã de Ceuta se dirige a agentes da polícia num vídeo divulgado pelo jornal El Faro de Ceuta e que está a circular nas redes sociais. Nas imagens, a mulher manifesta a sua revolta perante a situação que diz estar a viver na cidade e afirma sentir-se insegura.

"A minha cadela é a única que me protege. Não há militares, nem polícias na rua.", pode ouvir-se.

A cidadã conta, ainda, que eram cerca das 02h00 da madrugada e teve que chamar a polícia devido ao confronto entre alguns migrantes. "Isso dá medo.", disse.

Ceuta continua sob forte pressão

Esta revolta acontece depois de uma vaga migratória sem precedentes recentes ter atingido Ceuta.

No final de julho, a cidade registou uma chegada extraordinária de migrantes, sobretudo através do mar. A dimensão do movimento levou as autoridades locais a falar numa situação de emergência e de colapso dos serviços de acolhimento.

Antes da vaga de 30 e 31 de julho, a pressão migratória já era elevada. A 29 de julho, a EFE noticiava que mais de 400 pessoas aguardavam junto ao Centro de Estância Temporária de Imigrantes (CETI), que tinha as suas 512 vagas ocupadas.

O cenário agravou-se nos dias seguintes, com a chegada de mais de 50 mil migrantes.

Milhares de chegadas e estruturas sobrelotadas

A crise atingiu particularmente as estruturas destinadas ao acolhimento de menores não acompanhados.

Segundo dados divulgados pela Reuters, 1.342 menores não acompanhados estavam registados em Ceuta, enquanto as instalações destinadas a recebê-los tinham uma capacidade muito inferior à procura. O Governo espanhol anunciou entretanto planos para transferir parte destes menores para o território continental.

A situação levou também o presidente da cidade autónoma, Juan Jesús Vivas, a pedir uma intervenção mais forte do Governo espanhol.

Vivas classificou a situação como uma emergência e defendeu uma resposta coordenada das autoridades nacionais. Dias depois, perante o Parlamento Europeu, voltou a denunciar a dimensão da crise e pediu mais meios para a fronteira e para o sistema de acolhimento.

Preocupações dos residentes

É neste contexto que surge o vídeo da cidadã que afirma estar farta e com medo.

A preocupação com o impacto da crise na vida quotidiana de Ceuta tem sido acompanhada por outras manifestações públicas. A chegada repentina de milhares de pessoas provocou pressão sobre os serviços da cidade, enquanto as estruturas de acolhimento ficaram sem capacidade para responder ao número de pessoas que chegavam.

A segurança tornou-se também uma questão política

A situação migratória acabou por ultrapassar a dimensão humanitária e tornou-se também uma questão política e de segurança.

O presidente de Ceuta tem defendido que a cidade precisa de mais meios para proteger a fronteira e responder às consequências das chegadas. Vivas chegou mesmo a afirmar, perante o Parlamento Europeu, que a segurança de Ceuta está dependente de Marrocos, país que não reconhece a soberania espanhola sobre a cidade.

Ao mesmo tempo, o Governo espanhol tem procurado responder à sobrelotação das estruturas de acolhimento, sobretudo no caso dos menores não acompanhados.

A pressão levou ainda Espanha a reforçar os meios de vigilância marítima. No início deste mês, foi instalada uma barreira flutuante de cerca de 500 metros ao largo da fronteira marítima de Ceuta, depois da vaga de entradas que provocou dezenas de mortes.