1408. É este o número de dias que passaram desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia. A caminho do quarto aniversário, as hostilidades teimam em não cessar e, enquanto os esforços diplomáticos se intensificam, os ataques e a incerteza continuam a ser a realidade no terreno.
No ano passado, a guerra assumiu novos contornos com a entrada de uma nova variável na equação. Donald Trump voltou a assumir os destinos da Casa Branca e a política externa americana mudou de figura. O republicano fez da resolução do conflito russo-ucraniano uma das suas principais bandeiras de campanha, tendo chegado a afirmar que colocaria um ponto final na contenda entre Moscovo e Kiev em apenas vinte e quatro horas. Cerca de um ano depois de Trump voltar a sentar-se na Sala Oval, as tentativas de negociação subiram de tom e abriu-se uma linha direta entre Washington e Kremlin – algo que não tinha acontecido durante o mandato de Joe Biden. Ainda assim, o conflito persiste. Mas estaremos mais perto que nunca de conhecer o seu fim?
Uma nova diplomacia
Uma das características mais marcantes de Trump é a sua heterodoxia. Tweets, mensagens e discursos improvisados são uma imagem de marca da comunicação das administrações de Donald Trump. E a diplomacia, mesmo quando os desafios são consideravelmente importantes e de risco elevado, não escapa ao seu modus operandi. A primeira visita do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, à Sala Oval, em fevereiro do ano passado, e, ainda que a relação esteja notavelmente mais amigável, o mais recente encontro entre os dois líderes são provas claras disso mesmo.
Zelensky voltou a encontrar-se com Trump nos Estados Unidos numa fase em que já existem propostas de paz concretas em cima da mesa. Há pouco mais de um mês, os americanos apresentaram um plano de vinte e oito pontos que previa não só o cessar-fogo, mas também um roteiro que indicaria o caminho a ser percorrido no futuro. A Europa, que tenta manter a sua relevância no cenário internacional, reagiu com uma contraproposta que seria mais benéfica para a Ucrânia, mas que dificilmente seria vista com bons olhos em Moscovo. Agora, foi a vez de Kiev redigir a sua própria versão. E é com este pano de fundo que Zelensky se deslocou no início desta semana aos EUA. Mas desta vez a reunião não decorreu de acordo com a ortodoxia diplomática. O Presidente ucraniano foi recebido pelo seu homólogo americano em Mar-a-Lago, a residência de Trump em Palm Beach, na Flórida.
Território e segurança
Há duas grandes questões que se encontram no centro das negociações: o território e as garantias de segurança ucraniana. Quanto ao território, o plano inicial dos EUA previa assentava em quatro pilares: 1) «A Crimeia, Luhansk e Donetsk serão reconhecidas como territórios russos de facto, inclusive pelos Estados Unidos»; 2) «Kherson e Zaporizhzhia ficarão congeladas ao longo da linha de contacto, o que significará um reconhecimento de facto ao longo da linha de contacto»; 3) «A Rússia renunciará a outros territórios acordados que controla fora das cinco regiões»; 4) «As forças ucranianas retirar-se-ão da parte da região de Donetsk que atualmente controlam, e esta zona de retirada será considerada uma zona tampão desmilitarizada neutra, internacionalmente reconhecida como território pertencente à Federação Russa». Kiev não está de acordo. A falar aos jornalistas em Mar-a-Lago, Zelensky disse que o seu plano é «o enquadramento fundamental para pôr fim à guerra» e que «existem duas opções» em matéria de territórios: «ou a guerra continua, ou algo terá de ser decidido em relação a todas as zonas económicas potenciais». A escrever para a BBC, Paul Kirby diz que agora «parece haver muito mais detalhes sobre a questão territorial, embora esteja claro que o lado ucraniano não conseguiu chegar a um consenso com os americanos». «Zelensky explicou que, se a Ucrânia estivesse disposta a retirar as suas forças pesadas em cinco, dez ou quarenta quilómetros nos 25% de Donetsk que ainda controlava para criar uma zona económica, tornando-a praticamente desmilitarizada», continuou o jornalista, «então a Rússia teria de fazer o mesmo ‘em conformidade, em cinco, dez ou quarenta quilómetros’».
Mas a paciência de Trump parece ser cada vez mais curta. Mesmo que não se tenha comprometido com uma data, o Presidente americano disse que «ou isto acaba agora ou vai durar muito mais tempo e mais milhões de pessoas vão morrer». «Não há nada mais importante», acrescentou, «é preciso fechar um acordo, é preciso fazê-lo agora. Há demasiadas pessoas a morrer». Por sua vez, Zelensky, escreveu o correspondente em Washington do jornal espanhol ABC, David Alandete, «compareceu [em Mar-a-Lago] com um tom mais contido e estratégico. (…) Evitou grandes gestos retóricos e centrou-se em dois conceitos-chave para Kiev: garantias de segurança e coordenação com os aliados europeus».
A questão dos aliados europeus é importante. Estes últimos já haviam redigido a sua própria contraproposta e tanto a questão dos territórios quanto a das garantias de segurança são desviantes do pretendido por Washington. E é neste ponto que entra a NATO. A adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica tem sido um dos temas mais queridos tanto para a Europa quanto para Kiev, mas este sonho foi cortado pela proposta americana. Naturalmente, tanto a contraproposta europeia quanto a ucraniana voltam a abrir essa possibilidade. Na mais recente proposta de Zelensky, escreve Alendete, «uma das mudanças mais relevantes é simbólica, mas não menor: o texto já não inclui uma proibição explicita de que Ucrânia possa integrar a NATO um dia». «Não promete essa adesão», continua, «mas não a fecha. Em troca, propõe garantias de segurança ‘equivalentes’ ao artigo 5.º da Aliança Atlântica, uma fórmula deliberadamente ambígua que procura tranquilizar Kiev sem provocar uma rejeição imediata do Kremlin». O plano aborda ainda a adesão da Ucrânia à União Europeia em 2027. Zelensky disse que esperava uma resposta russa até esta quarta-feira.
Assim, os esforços para desatar este nó cego no Leste europeu são nitidamente elevados e todos os envolvidos esperam uma resolução rápida. Entretanto, as bombas continuam a cair e fazem com que o Inverno, sempre rigoroso na região, se torne extremamente duro.