segunda-feira, 14 set. 2026

Ucrânia prepara alternativa ao Starlink e pede 30 mil milhões à Europa para financiar a guerra

A Ucrânia testa com um país europeu uma alternativa ao Starlink, enquanto Volodymyr Zelensky procura 30 mil milhões de euros da Europa para financiar a defesa. O Presidente enfrenta ainda críticas do ex-ministro Mykhailo Fedorov sobre corrupção e a realização de eleições.
Ucrânia prepara alternativa ao Starlink e pede 30 mil milhões à Europa para financiar a guerra

A Ucrânia está a desenvolver e a testar uma alternativa europeia ao Starlink, numa altura em que Kiev procura reduzir a dependência da rede de satélites da SpaceX, de Elon Musk, para as operações militares contra a Rússia.

A revelação foi feita este sábado pelo Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que afirmou que o projeto está a ser desenvolvido em conjunto com um país europeu.

“Não vamos simplesmente esperar que os chineses e os russos lancem o seu próprio equivalente ao Starlink”, afirmou Zelensky aos jornalistas, acrescentando que Kiev “está atualmente a desenvolver um projeto semelhante com um país europeu” e que os testes já começaram.

Segundo o Presidente ucraniano, a Rússia está também a trabalhar num sistema semelhante ao Starlink em colaboração com a China e acredita que o projeto poderá estar concluído até dezembro de 2026.

Zelensky quer manter acesso ao Starlink

Apesar do desenvolvimento de uma alternativa, Zelensky garantiu que a Ucrânia pretende continuar a utilizar a rede Starlink, fornecida pela SpaceX.

O Presidente ucraniano espera, inclusivamente, convencer Elon Musk a autorizar a utilização da rede para operações de ataque contra alvos na Rússia, desde que exista aprovação de Washington.

“Por enquanto, [Elon Musk] disse que isso representaria uma escalada”, afirmou Zelensky, admitindo, contudo, que o empresário poderá mudar de posição perante “argumentos mais convincentes”.

A Starlink tem sido fundamental para as comunicações ucranianas desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022.

Zelensky defende que a utilização da rede em operações ofensivas poderia reduzir as capacidades russas para prolongar a guerra, nomeadamente através de ataques contra lançadores de mísseis balísticos.

Ucrânia recebeu menos mísseis Patriot

A Ucrânia reclama também mais sistemas de defesa antiaérea para intercetar os mísseis russos, particularmente Patriot norte-americanos.

Segundo os números apresentados por Zelensky, Kiev recebeu 675 mísseis Patriot em 2023, contra 364 em 2025 e apenas 264 em 2026.

O Presidente ucraniano relacionou a diminuição dos fornecimentos com a necessidade de os Estados Unidos e outros países ocidentais responderem a outras crises internacionais, numa referência à guerra no Médio Oriente.

Kiev precisa de 30 mil milhões de euros da Europa

A par das necessidades militares, Zelensky pediu ao Parlamento ucraniano que aprove as reformas internas necessárias para desbloquear 30 mil milhões de euros de fundos europeus destinados a responder ao défice das despesas de defesa.

O Presidente considera o financiamento, juntamente com a falta de mísseis balísticos, um dos “grandes desafios” que a Ucrânia enfrenta atualmente.

Bruxelas pretende mobilizar este ano 28,3 mil milhões de euros para reforçar a capacidade industrial militar ucraniana, no âmbito de um empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros destinado a apoiar a Ucrânia e responder às suas necessidades militares urgentes.

O acesso a parte destes fundos está, contudo, condicionado à aprovação de reformas destinadas a reforçar o combate à corrupção.

Uma comissão do Parlamento ucraniano bloqueou cinco projetos de lei relacionados com esse objetivo, situação que Zelensky considera necessário ultrapassar.

“Nem o Governo nem a oposição dispõem dos 30 mil milhões necessários para defender este país”, afirmou, apelando ao funcionamento do Parlamento.

Défice na Defesa aumenta pressão sobre Zelensky

O Presidente ucraniano reconheceu também a existência de um défice orçamental no Ministério da Defesa, depois de terem sido aprovadas despesas adicionais com salários de guerra, indemnizações às famílias dos militares e aceleração da produção de drones.

Zelensky estima que entre 8 e 10 mil milhões de euros do financiamento europeu sejam necessários para preparar o início de 2027, incluindo a aquisição antecipada de armas e outros equipamentos.

Os restantes cerca de 20 mil milhões de euros deverão ser destinados a apoios às famílias e pagamentos aos militares, segundo o Presidente.

“Precisamos de muito dinheiro”, admitiu Zelensky, acrescentando que já está a trabalhar para antecipar a segunda parcela do financiamento europeu.

Ex-ministro da Defesa pede eleições e responsabiliza Zelensky

A pressão sobre o Presidente ucraniano não é apenas financeira ou militar.

Mykhailo Fedorov, antigo ministro da Defesa da Ucrânia, afirmou este sábado que Zelensky deve “responder” pelos alegados casos de corrupção no seu Governo e voltou a defender a realização de eleições.

Em entrevista à BBC, Fedorov considerou que a democracia não pode ficar suspensa indefinidamente devido à guerra e defendeu que é necessário iniciar o debate sobre eleições, apesar de a Ucrânia continuar sob lei marcial.

“A democracia não deve ser refém de Putin”, afirmou.

Fedorov questionou ainda se Zelensky tinha conhecimento da alegada corrupção no seu círculo próximo, depois de ter sido anunciada uma investigação relacionada com branqueamento de capitais.

O antigo ministro, que foi substituído no mês passado, afirmou ter o “direito moral” de iniciar o debate sobre eleições.

“Não devemos ter medo de falar” sobre eleições, defendeu, argumentando que, sem eleições, a Ucrânia deixaria de ser uma democracia.

Zelensky tem, por seu lado, sustentado que realizar eleições durante a guerra seria demasiado perigoso para a Ucrânia.

Fedorov foi uma das figuras responsáveis pela modernização da utilização de drones pelas forças ucranianas e deixou o Governo depois de divergências com a liderança militar, segundo a informação divulgada.

A Ucrânia enfrenta, assim, uma combinação de desafios militares, financeiros e políticos, enquanto procura manter a capacidade de resistência perante a Rússia e garantir apoio europeu suficiente para financiar a guerra e preparar o próximo ano.