É comum acreditar que o Presidente e o vice-presidente dos Estados Unidos são das, se não ‘as’, pessoas mais protegidas e seguras do mundo. Afinal, são os líderes da maior potência mundial e não serão poucos os agentes, internos ou externos, individuais ou coletivos, que terão interesse em eliminá-los. As palavras da agência responsável por proporcionar essa proteção, os Serviços Secretos dos Estados Unidos, deixam isso claro: «a proteção de uma pessoa é abrangente e vai muito além de a cercar de agentes bem armados». E parte da sua missão consiste em «prevenir um incidente antes que este ocorra», baseando-se «num trabalho prévio meticuloso e em avaliações de ameaças para identificar riscos potenciais para as pessoas sob nossa proteção».
É precisamente esta competência que está a ser posta em causa após o tiroteio que ocorreu na noite do passado sábado, dia 25 de abril, no Hotel Hilton em Washington, DC. O Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, evento anual que contou com a presença do Presidente e do vice-presidente, foi subitamente interrompido após terem sido ouvidos disparos na sala, com Donald Trump, JD Vance e outras figuras de topo da administração norte-americana a serem evacuados para lugares seguros.
A segurança
O suspeito, que foi imediatamente detido, é Cole Tomas Allen, um criador de jogos e tutor em part-time californiano de 31 anos. Allen carregava consigo uma espingarda, uma pistola e várias facas, de acordo com as informações dadas pela Polícia após a detenção, o que faz levantar vários pontos de interrogação quanto à segurança de um evento deste tipo. Como explicou a NPR, «o Jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca realiza-se há muito tempo no Washington Hilton, que acolhe muitos eventos de grande visibilidade, pelo menos em parte devido a um design único, concebido especificamente para garantir a segurança presidencial. Existe até uma entrada especial para o presidente e uma sala de espera reservada atrás do palco, com o selo presidencial gravado no chão». Alterações estas que «foram introduzidas propositadamente após o presidente Ronald Reagan ter sido alvejado no exterior do hotel, em 1981». Este dado torna a alegada falha de segurança ainda mais difícil de compreender. Mas, ao contrário do que possa ter parecido à primeira vista, o atirador não chegou à sala onde decorria o jantar, tendo sido detido um piso acima, como clarificou o procurador-geral interino, Todd Blanche: «Quero deixar isto bem claro. Este homem estava um andar acima do salão de baile, com centenas de agentes federais entre ele e o Presidente dos Estados Unidos». «As forças da ordem não falharam», continuou, «fizeram exatamente aquilo para que foram treinadas».
Mas, de acordo com um alto funcionário da Casa Branca citado anonimamente pela NPR, a chefe de gabinete de Trump, Susie Willes, reuniu com «altos responsáveis do Departamento de Segurança Interna, dos Serviços Secretos e das operações da Casa Branca para debater os atuais processos e procedimentos de segurança do Presidente».
O ‘Assassino Federal Amigável’
No manifesto que escreveu antes de perpetrar o ataque, o qual assinou com o nome «Cole ‘coldForce’ ‘Assassino Federal Amigável’ Allen», Cole Tomas Allen faz várias declarações sinistras, e nem a questão da segurança escapou: «A primeira coisa que reparei assim que entrei no hotel foi aquela sensação de arrogância. Entro com várias armas e nem uma única pessoa ali considera a possibilidade de eu poder ser uma ameaça», disse no documento que foi entregue por um familiar à Polícia, de acordo com o New York Post. «A segurança do evento está toda no exterior», continuou, «concentrada nos manifestantes e nas pessoas que vão chegando, porque, aparentemente, ninguém pensou no que aconteceria se alguém fizesse o check-in no dia anterior. Este nível de incompetência é de loucos, e espero sinceramente que seja corrigido até que este país volte a ter uma liderança realmente competente».
A motivação por detrás da tentativa de assassinato do Presidente dos Estados Unidos fica evidente no manifesto. Allen escreveu que o seu objetivo seria eliminar «funcionários da administração (excluindo [Kash] Patel [diretor do FBI]) (…) classificados por ordem de hierarquia, do mais alto ao mais baixo» porque não estaria «mais disposto a permitir que um pedófilo, violador e traidor [manchasse as suas mãos] com os seus crimes», mostrando ainda que não ficaria com qualquer remorso se assassinasse todos os presentes porque partia do princípio que «a maioria das pessoas escolheu assistir a um discurso de um pedófilo, violador e traidor, sendo, portanto, cúmplices».
O californiano está agora acusado de tentativa de assassinar o Presidente, de transporte de arma de fogo e munições com a intenção de cometer um crime grave e de disparar uma arma de fogo durante um crime violento, podendo vir a ser sentenciado com a pena de prisão perpétua.
Assim, este é mais um sinal de que o clima político nos Estados Unidos está a atravessar um período de enorme tensão, e a violência política passou a ser frequente. Mas se estes episódios marcam uma escalada recente, a história dos Estados Unidos mostra-nos que esta violência foi sempre uma realidade. Ao longo dos quase 250 anos de existência da República norte-americana, vários Presidentes foram vítimas de atentados. Alguns morreram, outros sobreviveram. Desta vez, foi Trump que voltou a estar na mira, mas continua a fazer parte do leque dos chefes da Casa Branca que resistiram. Mesmo criticando os jornalistas, apelou para que o jantar volte a realizar-se nos próximos trinta dias, para vincar, como escreveu a NPR, que não quer «deixar os vilões vencerem»