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A devastação provocada pelos fortes sismos que atingiram a Venezuela poderá levar a uma nova vaga de saída de portugueses e lusodescendentes do país sul-americano. O alerta é dado ao Nascer do SOL por Fernando Campos, conselheiro das comunidades portuguesas, que admitia existirem já fortes indícios de vítimas entre a comunidade luso-venezuelana. Até ao fecho da edição já tinha sido confirmada a existência de portugueses entre as vítimas mortais.
De acordo com o responsável, a preocupação não surge apenas pela dimensão da tragédia, mas também pela forte presença portuguesa nas zonas mais atingidas. Fernando Campos chama a atenção para a destruição particularmente intensa no Estado de La Guaira, região costeira junto ao aeroporto internacional de Caracas. «Temos uma comunidade já com muitos anos na Venezuela que estão espalhados por todo o país e já estamos a falar de segundas, terceiras e até casos de quarta geração», refere. «Uma coisa são os números dos que estão inscritos nos consulados, outra coisa é aqueles que não estão – mas esses também são portugueses. Estimo que a nossa comunidade na Venezuela deve estar em cima dos 700, 800 mil pessoas».
O conselheiro lembra que muitas das famílias agora afetadas já tinham sido atingidas por outra das maiores catástrofes da história recente da Venezuela: a tragédia de Vargas, em 1999, quando cheias e deslizamentos de terras provocaram milhares de mortos e obrigaram ao realojamento de inúmeras famílias. Muitos portugueses foram então afetados.
Também agora o período pós-emergência será delicado. «Muitas famílias irão ficar sem habitação, sem negócios e sem meios de subsistência, numa altura em que a Venezuela continua a enfrentar profundas dificuldades económicas. E essa pode ser uma tragédia ainda maior. Temos de pensar que pode haver casos de famílias em que faleceram alguns membros u pode haver miúdos pequenos que ficam sozinhos. Podemos estar perante um regresso e muitos pedidos de repatriação por parte de pessoas da nossa comunidade», esclarece o responsável.
E mesmo aqueles que queiram permanecer na Venezuela precisarão de apoio financeiro para reconstruírem as suas vidas. A resposta poderá passar pela ajuda do Estado português. «Quem quer ficar precisa de apoio económico e não sei se, neste momento, o Estado e a banca venezuelanos terão capacidade de disponibilizar esse apoio económico, que poderá também passar pelo Estado português».
Apoio nacional e não só
Para já, o Governo português revelou que quatro ministérios estão a preparar o envio de uma equipa portuguesa de apoio às operações na Venezuela de cerca de 50 pessoas, que incluirá especialistas em resgate, elementos do INEM e da Unidade de Emergência e Socorro da GNR. Também atento está o Governo Regional da Madeira, tendo em conta a forte presença de madeirenses no país sul-americano.
Ao Nascer do SOL, Sancho Gomes, diretor regional das Comunidades e Cooperação Externa, revelou que Miguel Albuquerque irá enviar o seu chefe de gabinete, Rui Abreu, na próxima segunda-feira à Venezuela para fazer «um primeiro levantamento e perceber como está a nossa comunidade», que se estima que ronde os 350 mil indivíduos. No entanto, o responsável garante que está a acompanhar ao minuto o evoluir da situação, em contacto com o consulado e com a embaixada portuguesa em Caracas. «Neste momento, a informação que temos é que, por parte da comunidade madeirense, há famílias cujo contacto está a ser difícil e que há muito património de madeirenses que foi afetado», refere.
São vários os países, além de Portugal, que mandaram equipas para apoiar os trabalhos de resgate na Venezuela. Estados Unidos, El Salvador, República Dominicana, México, França e Brasil não tardaram a enviar equipas de resgate e também médicos. Estas equipas levam também consigo medicamentos e material necessário aos resgate. No total serão centenas de pessoas especializadas e toneladas de material necessário.
Já a Alemanha, por exemplo, ofereceu seis aeronaves militares para ajudar a Venezuela.
Também a ONU anunciou o envio de equipas especializadas de socorro que vão participar nas operações de busca de pessoas desaparecidas, e até o Papa Leão XIV enviou 100 mil euros para ajudar.
Enquanto ainda se procuram vítimas – com vida ou não – a Venezuela já começa a pensar em erguer o país. A Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a criação de um fundo de 200 milhões de dólares (176,4 milhões de euros) que tem como único destino a reconstrução das zonas afetadas, principalmente «reconstruir infraestruturas, hospitais e avançar na construção de habitações para quem perdeu as suas casas». Além disso, foram dadas instruções para a criação de um fundo que será destinado assistência imediata das vítimas da catástrofe.
Delcy Rodríguez declarou estado de emergência nacional e ordenou a mobilização em massa de equipas de resgate para as áreas costeiras e metropolitanas mais críticas.
O que sabemos
A Venezuela tremeu com dois sismos que tiveram os seus epicentros na região norte-central do país, mais especificamente no estado de Yaracuy, a oeste da capital, Caracas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) revelou uma probabilidade de 30% de o número de mortos chegar aos 100 mil. Na ‘melhor das hipóteses’, serão 10 mil.
Na memória recente está ainda, segundo uma fonte ligada aos meios de socorro portugueses, o sismo na Turquia e na Síria que terminou com um balanço final de 60 mil mortos. Este não deverá andará longe disso.
Na Venezuela, a terra tremeu duas vezes com 39 segundos de diferença. Na Turquia também tremeu a dobrar, mas com diferença de nove horas.
Trata-se de um fenómeno raro conhecido como ‘sismo duplo’ ou ‘dupleto sísmico’. Na prática, significa que, em vez de um abalo principal seguido de réplicas mais pequenas, ocorreram dois sismos de grande magnitude. O primeiro teve magnitude de 7,2 na escala da Richter e o segundo, mais forte ainda, de 7,5. Intensidade muito semelhante aos da Turquia e Síria, também acima da escala 7.
Segundo especialistas, um dupleto sísmico acontece quando dois grandes terramotos, associados a falhas geológicas relacionadas, ocorrem num curto intervalo de tempo. Nestes casos, o segundo abalo não é considerado uma réplica mas sim um novo evento sísmico, tão importante como o primeiro.
A explicação está na libertação de energia tectónica: a primeira rutura pode não dissipar toda a tensão acumulada e até aumentar a pressão sobre uma falha vizinha, desencadeando rapidamente um segundo sismo de grande intensidade.
Este fenómeno é particularmente perigoso porque o segundo abalo atinge estruturas já fragilizadas, aumentando assim o potencial de destruição. Além disso, a sucessão quase contínua de tremores prolonga a exposição da população e das infraestruturas aos efeitos do abalo.
Os sismos duplos são raros, mas já foram registados noutras partes do mundo como é o caso do Alasca, Japão, Filipinas, Sumatra e as Ilhas Curilas.
Ao fecho desta edição as buscas continuavam e estavam longe de chegar ao fim.