Há três anos decidiu fundar a Missão, que está umbilicalmente ligado ao Movimento Brasil Livre, que também fundou há 12 anos após a reeleição de Dilma Rousseff. Explique aos portugueses que não estão familiarizados com o projeto qual é a missão da Missão?
O Brasil é um país que é entendido por boa parte das pessoas que pensam o Brasil como uma oportunidade perdida, ficamos eternamente como uma oportunidade perdida. O Brasil, em termos de poder relativo perante o mundo, não só em termos de influência, mas em termos de economia, diminuiu o espaço dele e ficamos presos. Então, a nossa discussão agora não tem sido sobre o bolo crescer, mas sobre como nós vamos dividi-lo. As leis penais no Brasil têm de pensar em como reabilitar o criminoso para a sociedade civil e não antes pensar em exportar mais. Nós temos de rever as leis trabalhistas não para tornar o Brasil mais competitivo, mas para rever desigualdades, ou seja, estamos a desperdiçar gerações.
A minha geração é uma geração perdida, com discussões inúteis, enquanto as coisas práticas que são feitas em países que eram mais pobres que o Brasil – a Coreia do Sul, o Vietname e a China eram mais pobres que o Brasil. O nome Missão vem sobre um sentido de missão e de urgência, em que nós adaptamos o nosso programa a esse sentido de urgência. Então, o que nós temos é um programa muito pragmático, que não é preso em ortodoxias ou em dogmas, mas em experiências de sucesso em outros países e mesmo experiências de sucesso no Brasil, dentro de um determinado período, com uma vontade muito grande de fazer as coisas acontecerem rápido. Já sabemos o que vamos fazer, já estudámos. Agora nós temos de ir para a ação, como vamos tornar o Brasil o país no qual queremos viver no menor período de tempo possível. E esse sentido de missão foi o que pautou a escolha do nome. Tornar o Brasil desenvolvido rapidamente, nos próximos 20 anos, é o objetivo geracional que nós temos. E é um objetivo muito claro e exequível.
Atualmente, como sabemos, a política brasileira está partida ao meio. De um lado temos os apoiantes de Lula, do outro os de Bolsonaro. Ou seja, uma polarização clara. A Missão apresenta-se como crítica de ambos, mas posiciona-se claramente no campo da direita. Que direita? E o que distingue esta direita da Missão da direita bolsonarista?
O Lula e o Bolsonaro fizeram dois governos de centro. Eu posso dizer que o Lula tem uma agenda mais à esquerda do ponto de vista do assistencialismo. Mas encontramos ainda inúmeras experiências de direita na América Latina com base no assistencialismo. O assistencialismo sempre foi tocado no Brasil pela direita no Nordeste. O governo, entretanto, é um governo essencialmente de centro. O governo do Bolsonaro também foi um governo de centro. Ainda que as pessoas de direita chamem radical à esquerda e ao lulismo por conta das associações internacionais do PT, ou por conta de certo discurso meio woke, e os lulistas chamem radical ao Bolsonaro por conta de alguns discursos que ele faça. Mas a execução é sempre uma execução ao centro. E ela é sempre ao centro não porque eles são ponderados ou porque eles fizeram uma espécie de pacote exequível. Não. Na verdade, o que eles têm é apenas uma governabilidade mitigada, que é executada no Brasil através de uma coisa muito antiga, que é inclusive uma tradição que herdámos do período nosso de Brasil-colónia, que é o patrimonialismo. Somos um país profundamente patrimonialista e basicamente 70% ou 80% dos nossos congressistas pertencem a uma espécie de doutrina silenciosa chamada centrão. Na prática, nós rompemos com eles se nós rompermos o paradigma do centrão como fonte de governabilidade no Brasil. E o nosso foco é esse.
Como jovem, como líder de um movimento de jovens, reúne principalmente o apoio da faixa etária jovem, como disse, dos 16 aos 24. Mas, como sabemos, a base jovem não é suficiente para ganhar eleições. Como pode a Missão atrair uma fatia maior do eleitorado mais velho?
Essa é uma pergunta que, se eu soubesse responder, ganhava as eleições. Não é a pergunta mais fácil de se responder, mas posso especular. O meu discurso, quando apresentado a uma pessoa de 60, 70 anos, ele encanta essa pessoa. A minha forma, entretanto, a estética daquilo que nós produzimos e o tipo de engajamento que nós temos, e o facto de nós sermos de direita, mas não bolsonaristas, causam uma repulsa inicial. Nós já até fizemos uma pesquisa interna, a famosa pesquisa Quali, para entender como é que eles viam o nosso discurso. A questão é conseguir atingir massa crítica junto dos jovens, para que com essa massa crítica consiga chegar aos mais velhos. Consigo fazer essa transição depois, uma transição inclusive de linguagem e de estética. O que eu não posso fazer, e nós entendemos isso, é um discurso meio a meio, um discurso morno. E o discurso morno é o seguinte: é um discurso em que eu atendo em parte aos mais jovens e atendo em parte aos mais velhos. Esse é o grande erro dos políticos de centro. Eles acham que o discurso deles tem de ser naturalmente mitigado para agradar um pouco a toda a gente.
Quanto aos gangues e ao crime, li num jornal brasileiro que o Renan quer ser o novo Bukele e quer adaptar o sistema do Bukele para a realidade brasileira. É verdade?
Eu nunca disse que queria ser o novo Bukele, no sentido de que ele é ele. Nós temos muitas ideias diferentes para outras áreas do Brasil. Dito isto, na parte de combate ao crime, o trabalho dele é nota 10, por enquanto. Todas as pessoas que conhecemos que estiveram em El Salvador, inclusive nós tivemos e fizemos uma reportagem em El Salvador, sabem que, hoje, El Salvador é um caso raro na América Latina, em que podes andar da periferia da principal cidade até o centro com o telemóvel na mão sem seres assaltado. Isso no Brasil é um privilégio. No Brasil, não consegues fazer isso em praticamente nenhuma cidade. Serás roubado fatalmente no Brasil se você ficar dando mole, como nós dizemos no Brasil.
Nós vamos trazer para o Brasil o Estatuto do Direito Penal do Inimigo. Existe um professor alemão, o Guinter Jacobs, que trata bastante disso, que é conferir-lhes um estatuto tal qual o de uma organização terrorista, em que os direitos e prerrogativas individuais de um membro de uma fação criminosa são menores do que um cidadão comum. aquela pessoa que pertence a uma fação criminosa, o Estado pode ser muito rápido, quebrar todos os sigilos bancários, fiscais, telemáticos dela, entrar em sua casa de maneira rápida, fazer prisões rápidas, sem audiência de custódia, e colocá-lo rapidamente na prisão. Ou seja, o direito tem de ser muito rígido e muito rápido contra ele. Bukele fez isso e nós vamos fazer exatamente o mesmo trabalho.
Não restam dúvidas que esta é uma das suas bandeiras principais. Mas quero perguntar-lhe, para além do crime, quais são os problemas principais e que merecem a maior urgência por parte do poder político e em que medida é que esses problemas estão a bloquear o crescimento do país no qual reconhece, e todos reconhecemos, naturalmente, um mar de potencialidades?
Para além do crime, o principal problema brasileiro é que o Brasil é um país institucionalmente confuso. Isso reflete-se do ponto de vista fiscal num estado que gasta mais e gasta mal, portanto, os juros no Brasil são alguns dos juros mais altos do mundo, o que impede o desenvolvimento económico. Os gastos públicos acontecem de maneira absolutamente irracional e isso impede, novamente, o Brasil de ter poupança. Sem poupança não há investimento, o que nos mantém num círculo de pobreza e endividamento eterno. As contas públicas, nesse sentido, estão a ir para o buraco. A questão é entender por que isso acontece.
O modelo federativo brasileiro e o modelo de representação política brasileira incentivam o Estado a gastar muito mais e gastar muito mal. Então, o que existe no Brasil é o seguinte: os Estados mais mal administrados e mais pobres recebem desproporcionalmente mais do que os Estados bem-administrados. E isso não gera, entretanto, uma melhoria, um equilíbrio. Toda a gente no Brasil é a favor de ter um equilíbrio regional. Um equilíbrio regional, em termos económicos, diminui a migração interna e faz com que não existam tantas favelas em certas regiões. É uma questão consensual. O problema é que hoje coloca-se mais dinheiro nos municípios e Estados que menos funcionam, e esses lugares elegem figuras políticas extremamente corruptas, que mantêm uma lógica, nas votações deles no Congresso, extremamente perigosa para a nação, que é uma lógica de aumento de gastos públicos para manter as políticas assistenciais nos próprios Estados deles. Temos um círculo vicioso no Brasil terrível. E esse é o grande problema.
De forma resumida, qual é a importância da relação entre o Brasil e Portugal, o que tem falhado e o que é que pode ser melhorado?
O Brasil e Portugal são absolutamente indissociáveis. A nossa visão sobre Portugal, inclusive publicada no livro amarelo, é que o Brasil tem de olhar para Portugal, olhar para os países de língua lusófona no mundo e entender que isso é uma reserva de poder para nós nos localizarmos e exercermos poder perante o mundo. O Brasil, e nós comentamos isso no nosso livro, tem de parar de se autossabotar, recuperar a sua força perante o seu próprio território e recuperar o seu legado histórico. O potencial é colossal