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Por esta hora provavelmente estará já a estudar algum ângulo, a imaginar um esquema que lhe permita fazer uma OPA ao Além, renegociar os direitos de transmissão do Juízo Final e transformá-lo num canal premium, por subscrição e sem anúncios. Isto, supondo que recuperou a sua índole astuciosa, aquele espírito tão inquieto como impiedoso, e, por vezes, sem grandes escrúpulos. O homem que afirmou, sem ironia, estar a tentar estabelecer o recorde absoluto de realizações por uma única pessoa numa só vida – o que, segundo ele mesmo declarou ao jornalista Dale Van Atta, numa entrevista publicada pela Reader’s Digest em 1998, o colocaria entre um lote bastante restrito, com figuras históricas como Alexandre o Grande, Napoleão, Gandhi, Cristo, Maomé ou Churchill – morreu aos 87 anos. Tinha, no entanto, saído já de cena há uns anos, tendo revelado, em 2018, que padecia de demência de corpos de Lewy, uma doença cerebral progressiva causada pela degeneração e morte de células no cérebro. No que toca ao seu legado, é difícil resumi-lo, mas ajudou certamente a deixar um planeta viciado no ruído da notícia, essa que desaba afinada para provocar frisson. Foi um dos principais oficiantes da ininterrupta liturgia que faz zapping sobre o mundo «em tempo real», tantas vezes sem a menor capacidade ou interesse em fornecer o contexto que permita interpretar o que estamos a ver, de tal modo que aquele primeiro esboço da história, que era tarefa das redações esquissarem, se transformou num desavergonhado espetáculo de consumo imediato, um registo de salivação nevrótica mais do que propriamente uma capacidade de refletir criticamente.
Uma espécie de pirata com um talão de cheques prestes a entrar em combustão se não estivesse a provocar desordem, Turner foi pioneiro no atual capitalismo de casino, marcando decisivamente a cultura ao dar-nos um vislumbre do que estaria para vir, prenunciando o enredo de fanfarrões e titãs que dominam hoje conglomerados que rivalizam com o PIB de tantas nações. Quando fundou a CNN em 1980, a elite de Nova Iorque mostrou o seu desdém pela ‘Chicken Noodle Network’. Mas Turner acabaria a rir por último. Na década seguinte, foi quem melhor aproveitou a Guerra do Golfo, numa altura em que o mundo parou para ver a História em tons de verde fosforescente. Foi o impulso que faltava para que a CNN ganhasse um alcance global, invadindo os quartos de hotel, sendo que aquela classe que faz negócios por todo o mundo não dispensava poder estar a par de cada desenvolvimento de última hora. «Sei mais pela CNN do que pela CIA», disse o então presidente norte-americano George H. Bush. Esta foi também a década em que Turner se casou com Jane Fonda, a estrela de Hollywood que se tornou também uma figura de relevo no ativismo ambiental. Em 1991, foi Homem do Ano da revista Time, com a capa a servir como cerimónia que o entronizou enquanto magnata dos media por «influenciar a dinâmica dos acontecimentos e transformando os espetadores de 150 países em testemunhas instantâneas da História». Em certo sentido, pode dizer-se que Turner soube compreender a notícia como um impulso, injetando-lhe aquela urgência de ordem biológica que parece ter sido um dos elementos decisivos das tensões que, nos nossos dias, e através das redes sociais, parecem ter transformado o próprio senso comum e as perspetivas culturais um amplo campo de guerra.
A sua biografia é um exercício de contrastes violentos, pintada com as cores berrantes de um outdoor de beira de estrada – o negócio onde começou sob o chicote de um pai abusivo e alcoólico. Robert Turner Jr. exigia que o filho pagasse renda com o próprio salário de operário. Ted herdou o império e os demónios. Quando o pai se suicidou em 1963, tinha apenas 24 anos, mas provou uma firmeza inabalável ao ignorar os contabilistas, recusando-se a vender os destroços da empresa. Em vez disso, foi dobrando a aposta com uma fúria maníaca.
Comprou estações de televisão que ninguém queria, equipas de basebol moribundas como os Atlanta Braves e iates que levava ao limite. Em 1977, conquistou a America’s Cup como o «Captain Courageous», mas a vitória foi puro teatro. Apareceu tão embriagado na conferência de imprensa que o discurso se dissolveu num murmúrio, rodeado de modelos e de um escândalo que fez Newport tremer. Era o mesmo homem que abalroara o barco da primeira mulher numa regata só porque ela estava prestes a vencê-lo.
Depois de consolidar a CNN, não se limitou a competir com as redes tradicionais: tentou reinventar o próprio tecido da cultura audiovisual. Comprou a biblioteca da MGM, arrebatando milhares de filmes clássicos como quem adquire um continente em segunda mão, e lançou a operação de colorização de cinema antigo, uma espécie de reescrita tecnológica da memória que lhe valeu acusações de vandalismo cultural por parte de realizadores e críticos. Para Turner, porém, tratava-se apenas de atualizar o passado para o consumo presente – uma lógica perfeitamente coerente com o seu instinto de acelerador de tudo.
A integração posterior no universo da Time Warner marcou o início da contenção forçada. Já não era o pirata que comandava o navio, mas o capitão tolerado a bordo de um império mais vasto do que o seu. A fusão com a AOL, no final dos anos 90, selou essa transição para a irrelevância corporativa: Turner foi progressivamente despojado de autoridade efectiva, reduzido a figura simbólica num edifício que ele próprio ajudara a erguer.