terça-feira, 08 set. 2026

Tarifas: Canadá retalia contra EUA 'dólar por dólar'

Após negociações falhadas, os Estados Unidos e o Canadá estão em guerra comercial aberta. O resultado será a subida dos preços.
Tarifas: Canadá retalia contra EUA 'dólar por dólar'

A política comercial tem sido, desde o início do seu segundo mandato em 2025, um dos temas centrais na abordagem ao exterior do Presidente norte-americano, Donald Trump. O protecionismo, ou nacionalismo económico, tem sido justificado pela administração dos Estados Unidos com o argumento de que constitui um instrumento fundamental no combate à “injustiça” que, a seu ver, representam os défices comerciais. E após o envolvimento externo na Venezuela e, mais notavelmente, no Irão, ter dominado a agenda internacional, as tarifas voltaram ao centro do debate.

Desta vez, os visados não foram a China nem a União Europeia. Foi o vizinho e aliado Canadá, com quem os Estados Unidos têm mantido uma relação amigável e de cooperação ao longo das décadas. Ainda assim, Trump considera que os canadianos têm estado a usufruir de uma «free ride», uma posição privilegiada em matéria comercial que tem prejudicado os EUA e que, por isso, deve terminar.

No comunicado oficial publicado pela Casa Branca sobre o tema, pode ler-se que a administração americana não tem dúvidas quanto ao facto de o «Canadá [ter] vindo a explorar os Estados Unidos há décadas», pelo que «o presidente Donald J. Trump está farto de deixar que continuem a safar-se impunemente». E, logo na frase seguinte, admite que «na semana passada, os EUA ofereceram ao Canadá o acesso ao mercado mais preferencial de todos os países do mundo, com reduções significativas nos setores do aço, do alumínio, dos automóveis, da madeira serrada e outros». Uma oferta que, argumenta Washington, encontrou resistência do outro lado: «Em vez de uma parceria, o Canadá optou por exigências irrazoáveis, recuos e uma rejeição categórica». Mais, o Presidente chegou a declarar que «o Canadá é, sem dúvida, o mais difícil e irracional. Sentem-se no direito de exigir, mas não são um Estado [dos EUA] e deixarão de ter esse direito!».

A versão do primeiro-ministro canadiano, o liberal Mark Carney, é, naturalmente, diametralmente oposta. Também através de um comunicado oficial, o chefe do executivo do Canadá explica as razões pelas quais abandonou a mesa de negociações na semana passada. De acordo com Carney, «há mais de um ano que o Canadá tem vindo a trabalhar de forma intensiva e de boa-fé com os Estados Unidos para negociar um novo acordo comercial abrangente», mas o entendimento não foi possível, porque Ottawa pretende um «acordo comercial mutuamente benéfico» que «respeite a nossa soberania», que «tire partido dos nossos pontos fortes complementares», que «reduza os custos para as famílias de ambos os lados da fronteira» e que «crie empregos para os nossos trabalhadores».

Depois de uma explicação com algum detalhe sobre como o Canadá não está a «explorar» os Estados Unidos simplesmente porque existe um défice comercial, Carney, reconhecendo que o «efeito cumulativo das exigências dos EUA revelou os limites do seu empenho numa verdadeira parceria económica», anunciou que o seu executivo irá «igualar, dólar por dólar, as novas tarifas impostas por Washington, a fim de proteger os trabalhadores, os agricultores, as famílias e as empresas canadianas». Estão em causa tarifas na ordem dos 50% num leque alargado de produtos. No fundo, concluiu o primeiro-ministro, «no Canadá, somos senhores da nossa própria casa, de costa a costa a costa».

De acordo com o Politico, o Canadá tem uma vantagem neste imbróglio tarifário, ainda que a diferença de dimensão entre ambas as economias torne as tarifas numa ameaça maior para os negócios canadianos: a opinião pública. «Os americanos», escreve o jornal, «que já estão descontentes com as tarifas, são muito mais propensos a ficar indignados com qualquer indício de aumento de custos ou de impactos económicos do que os canadianos». De qualquer das formas, no final das contas, serão todos os consumidores, americanos e canadianos, a perder com a subida dos preços.

goncalo.nabeiro@nascerdosol.pt