sexta-feira, 12 jun. 2026

Superbactéria hospitalar: Cientistas descobrem mecanismo que pode travar resistência aos antibióticos

Uma equipa internacional de cientistas identificou o mecanismo molecular que permite à perigosa bactéria Pseudomonas aeruginosa resistir aos antibióticos. A descoberta pode abrir caminho a novos tratamentos contra superbactérias responsáveis por milhões de mortes em todo o mundo
Superbactéria hospitalar: Cientistas descobrem mecanismo que pode travar resistência aos antibióticos

A descoberta de um mecanismo molecular que permite à bactéria Pseudomonas aeruginosa resistir aos antibióticos poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novos tratamentos capazes de combater infeções hospitalares multirresistentes.

O estudo, publicado na revista científica Journal of the American Chemical Society, foi conduzido por investigadores do Blas Cabrera Institute of Physical Chemistry (CSIC), em Espanha, e da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) uma das 15 bactérias mais perigosas do mundo, a Pseudomonas aeruginosa é um agente patogénico frequente em infeções hospitalares e destaca-se pela elevada capacidade de resistir aos antibióticos atualmente disponíveis.

Segundo os investigadores, a bactéria possui uma membrana externa protetora que funciona como uma verdadeira barreira contra medicamentos como a penicilina. Até agora, sabia-se que essa membrana estava ligada à parede celular, dificultando a ação dos antibióticos, mas o mecanismo exato permanecia desconhecido.

A investigação permitiu identificar a proteína responsável por esse processo, designada PA2854, bem como o mecanismo através do qual a bactéria fixa a membrana externa à parede celular através de uma espécie de “rebite molecular”.

Ao replicarem este mecanismo em laboratório, os cientistas concluíram que o bloqueio da formação desse “rebite” enfraquece a dupla proteção da bactéria, tornando-a mais vulnerável à ação dos medicamentos.

“Os nossos resultados abrem caminho para o desenvolvimento de novas estratégias antimicrobianas que visam e interferem especificamente neste processo, tornando a membrana mais permeável aos fármacos”, explicou Juan Hermoso, um dos responsáveis pela investigação.

Para observar o processo ao nível atómico, os investigadores recorreram a cristalografia de raios X de alta intensidade, utilizando o sincrotrão ALBA, em Barcelona, e o ESRF, em Grenoble.

Os cientistas sublinham ainda que este mecanismo de ancoragem não é exclusivo da Pseudomonas aeruginosa, estando também presente noutros agentes patogénicos Gram-negativos. Isso significa que a descoberta poderá ter impacto no desenvolvimento de terapias contra várias superbactérias resistentes.

A Pseudomonas aeruginosa encontra-se frequentemente no solo, na água e em ambientes húmidos, podendo provocar desde infeções ligeiras, como otites, até doenças graves, incluindo pneumonia e infeções pulmonares severas, sobretudo em contexto hospitalar.

A resistência aos antibióticos é atualmente considerada uma das maiores ameaças à saúde pública global. O fenómeno está associado a milhões de mortes por ano em todo o mundo e levanta receios de um regresso a uma era pré-antibiótica, na qual infeções comuns poderão voltar a ser potencialmente fatais.