Há quase três semanas que encontrar combustível na região da grande Maputo se transformou num empreendimento. O Governo diz que a situação está controlada, mas o Presidente Chapo já declarou que a crise pode chegar mesmo e a qualquer momento.
O centro e o norte de Moçambique também registam forte escassez.
«A bolada é óbvia», explica ao SOL Macamo, um veterano ardina de Maputo: «Mas qual guerra do Trump? Isto foi tudo pensado pelo Musk, para vender mais carros eléctricos! Vais vê-los a inaugurar os nossos buracos sem deitar fumo. Já não falta muito. O Trump quanto muito ganha uma comissão».
Outros discordam. Lucrécia, professora, assegura que a culpa é toda do Governo. Que só o pacato cidadão é que sofre. «Pois se as escoltas oficiais continuam a ser faraónicas, já viste que isso eles não diminuem?». Em Maputo, as autoridades, a todos os níveis, só se deslocam com vários carros de escolta e batedores.
Mais prosaica, uma fonte do principal banco privado do país confidencia que o problema é a lei de Murphy: «Sabe que a torrada cai sempre com o lado da manteiga para baixo. Não há divisas e nós não conseguimos pagar ou emitir as garantias de pagamento aos fornecedores. Podia correr mal. Correu».
De facto, Moçambique enfrenta uma colossal falta de divisas desde 2023, ano em que a política de proteção do metical encetada pelo Banco de Moçambique para conter a inflação levou ao desaparecimento de moeda forte dos bancos comerciais.
«Nem há euros suficientes para importar bacalhau, como vamos pagar o combustível?».
A tese do Governo, defendida pelo ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defende que não há falta de combustível. Em declarações públicas, há cerca de uma semana, Salim Valá afirmou que a economia funciona com base em «percepções e expectativas» e que se registava uma «corrida acentuada ao combustível» nos últimos dias.
Segundo o governante, foi essa pressão extraordinária sobre o consumo, motivada pelo medo da escassez ou de um aumento repentino do preço, que levou as bombas a ficarem à míngua. «Como assim corrida? Pois se estamos aqui parados há horas», ironizam os chapeiros.
O meu comportamento e a atitude que observo quotidianamente em Maputo, não deixam de lhe dar alguma razão.
Gasto normalmente 175 litros de gasóleo por mês. Só na primeira metade do mês de Abril já adquiri 430 litros de combustível. Ou seja: em 15 dias já adquiri cerca de duas vezes e meia o combustível que normalmente consumo em um mês.
O medo de que as bombas fiquem secas levou muito maputenses a agir de forma idêntica.
Nos grupos das redes sociais criaram-se aplicações para informar os utilizadores sobre as bombas em que há combustível.
Depois, há uma corrida infrene dos proprietários dos cerca de 565 mil carros registados em Maputo a encher os depósitos e todos os recipientes que conseguiram arrecadar.
Ora, estando os dólares dos bancos privados contadinhos, recusando-se o Banco de Moçambique a emitir garantias bancárias e ficando o estreito de Ormuz cada vez mais apertado não há possibilidade de aumentar o abastecimento.
Resultados e receios
A consequência é penosamente evidente: filas avassaladoras em todos os postos de combustível que estão a operar. Ruas entupidas, porque as filas se entornam para as faixas de rodagem, crescente ausência de ‘chapas’ e milhares de horas de trabalho perdidas.
Há quem saia de casa às três da madrugada para meter gasolina e depois fique a dormir na estrada à espera da hora de ir trabalhar.
O grande receio é o futuro próximo. O aumento do combustível é inevitável, Por enquanto é possível comprar um litro de gasolina por cerca de 1.10€ e o gasóleo a 1.06€.
Mas em breve estes preços serão apenas uma doce memória. Seguem-se os aumentos em cadeia dos bens alimentares. Se, em simultâneo, o metical sofresse a desvalorização que os mercados há muito antecipam a situação poderia ser catastrófica.
Num país onde mais de 80% dos seus 35 milhões de habitantes vivem com cerca de dois euros por dia – elencado como o segundo mais pobre do mundo em recente relatório do Banco Mundial – o receio de nova onda de agitação social é premente.
Venâncio Mondlane ainda não disse nada.