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Quatro acidentes ferroviários no espaço de cinco dias pode parecer uma sequência de eventos diretamente retirada de uma novela trágica. Mas aconteceu. E aconteceu num país que integra um leque de países que se designam comummente, e a título de simplificação, desenvolvidos.
O acidente mais impactante, pelo número de vítimas que causou, aconteceu no passado domingo em Adamuz uma província espanhola de Córdoba. As últimas três carruagens do comboio da Iryo que partiu, com 300 passageiros a bordo, da estação María Zambrano, em Málaga, e que se dirigia à estação de Atocha, em Madrid, descarrilaram. A tragédia dá-se nove segundos depois, quando um comboio da Renfe, a viajar em sentido contrário e com 184 passageiros, colide com as duas últimas carruagens do comboio que descarrilou. Até ao momento, e de acordo com os últimos dados publicados pela RTVE, faleceram 45 pessoas e outras 123 ficaram feridas, das quais 6 estão em estado grave.
O presidente do Governo, Pedro Sánchez, decretou três dias de luto nacional e prometeu esclarecimentos. Como escreveu a jornalista Paula Rosas para a BBC, o acidente deixa no ar "muitas perguntas, já que (…) ocorreu numa reta, num trecho da via que havia sido reparado recentemente e com comboios novos que acabavam de passar por uma revisão". Para o ministro dos Transportes e Mobilidade Urbana espanhol, Óscar Puente, o acidente foi "tremendamente estranho" porque o "comboio Iryo era praticamente novo, com menos de quatro anos, e a via foi completamente renovada, após um investimento de 700 milhões de euros. Nesse troço, as obras foram concluídas no mês de maio passado".
Sobre uma rutura no carril, uma das hipóteses com mais força, visível em várias fotografias já publicadas, Puente diz ainda não saber se foi causa ou consequência do descarrilamento. De acordo com a RTVE, o Partido Popular "vai solicitar a comparência [de] Pedro Sánchez, bem como [de] Óscar Puente, e do presidente da Adif, Luis Pedro Marco de la Peña, para que prestem esclarecimentos sobre o acidente".
Mas os esclarecimentos não serão apenas sobre o desastre em Adamuz, mas também sobre o que aconteceu na terça-feira, quando um comboio da Rodalies embateu num muro que havia caído devido às fortes chuvas que caíram na região da Catalunha. Morreu uma pessoa, o maquinista, e das 30 que ficaram feridas 5 encontram-se em estado grave. Sánchez recorreu à sua conta oficial do X para se pronunciar sobre o acidente: "[Estou] muito atento às informações sobre o acidente de um comboio da Rodalies em Gelida. Acompanhando a evolução da situação e o trabalho dos serviços de emergência. Todo o meu carinho e solidariedade com as vítimas e suas famílias".
Ainda na terça-feira, outro comboio descarrilou na Catalunha, desta vez em Lloret del Mar, devido à presença de pedras na via. Nenhum dos dez passageiros ficou ferido, de acordo com a Renascença.
Mas, passadas menos de 48 horas do acidente em Gelida, na Catalunha, e quando ainda se realizam buscas em Adamuz, mais um acidente ferroviário. Desta vez, menos graves que os anteriores. O comboio que percorria o trajeto Cartagena-Los Nietos, na região de Múrcia, foi atingido pelo braço de uma grua que invadiu a zona de passagem do comboio. A janela foi partida, mas não houve descarrilamento. Há seis feridos ligeiros.
Impacto político
Naturalmente, as tragédias ao nível das infraestruturas têm ramificações políticas. E neste caso, de acordo com as declarações do jurista Gonçalo Dorotea Cevada ao SOL, mesmo que ainda não sejam conhecidas "as causas dos vários acidentes (…) – isto apesar do atrevimento do ministro da tutela [Óscar Puente] em descartar qualquer ligação à falta de manutenção e investimento nas linhas ferroviárias – há explicações e responsabilidades políticas a apurar.