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Em agosto de 2017, a Polícia Judiciária espanhola foi a casa de Justo Martín Garrido como suspeito de extorsão. O que encontraram dentro de casa mudou o rumo da investigação por completo.
Catorze rolos de fotografias. Um pendrive com 207 imagens. 44 vídeos. 26 cadernetas com registos manuscritos de mais de 5.000 caixões. E um documento que explicava, passo a passo, como funcionava um dos maiores esquemas de fraude funerária de que há memória em Espanha.
Justo era funcionário da Funerária Castellana, de Valladolid. Durante anos tinha documentado em silêncio tudo o que via, não por consciência cívica, mas para usar como pressão sobre o patrão: ameaçou expor o esquema se este não melhorasse a sua pensão e não contratasse o seu filho. O patrão recusou e denunciou-o por extorsão. Ao investigar essa queixa, a polícia encontrou o arquivo. O próprio auto judicial descreve-o como uma prova avassaladora que o trabalhador disponibilizou de forma involuntária.
Quando uma família enlutada pagava por um caixão de luxo, estava convencida de que o ente querido seria cremado nele. Não era. Antes da cremação, os funcionários substituíam o caixão por um modelo de baixa qualidade. O original era devolvido ao stock e revendido a outra família. E assim sucessivamente, durante vinte anos, entre 1995 e 2015.
De acordo com o El Confidencial, que acompanhou de perto o caso desde as primeiras detenções, cerca de 6.000 caixões terão sido reciclados desta forma, o equivalente a 73% de todos os que deveriam ter sido incinerados nesse período. O lucro estimado pelo Ministério Público espanhol é de quatro milhões de euros.
Para que ninguém suspeitasse, havia um procedimento específico para os casos em que os familiares pediam para assistir ao início da cremação: os funcionários introduziam o caixão no forno, acionavam os ventiladores que produziam muito ruído, mas não ativavam a combustão. A família ouvia o som, despedia-se, e ia embora convencida de que tudo tinha corrido como previsto. Os caixões eram depois transportados para o cemitério da empresa em Santovenia de Pisuerga, onde era feita a troca e realizada a cremação real.
Por trás de tudo estava Ignácio Morchón Alonso, natural de Torrelobatón, uma localidade com menos de 400 habitantes nos arredores de Valladolid. Trabalhou em várias profissões antes de entrar no negócio funerário e acabou por dominar praticamente todo o mercado local. Chegou a candidatar-se à presidência do clube de futebol Real Valladolid. As investigações apuraram ainda que tinha informadores pagos em hospitais e lares de idosos, que o alertavam de cada óbito para que a sua empresa chegasse primeiro às famílias.
Morchón morreu há cerca de dois anos e meio, já com o processo em curso, e não chegará a sentar-se no banco dos réus. No seu lugar estão a viúva, Rosário Vaquero, e os três filhos: Ignácio, Rosa e Laura. Cada um deles enfrenta um pedido de 20 anos de prisão por crimes que incluem organização criminosa, fraude continuada, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e desrespeito pelos cadáveres. Dezanove funcionários da empresa estão também entre os arguidos.
O arquivo de Justo revelou algo ainda mais perturbador do que a fraude financeira: o modo como os corpos eram tratados durante a troca dos caixões. As imagens mostram cadáveres colocados em tampas de caixões em desuso e em caixas de restos, numa "grande falta de respeito pelos defuntos", nas palavras da juíza de instrução.
O julgamento arrancou a 2 de março de 2026, em Valladolid, com 23 arguidos, 239 testemunhas e 17 peritos, distribuídos por 34 sessões até 9 de junho. Quando a notícia do esquema se tornou pública, desencadeou cerca de 1.300 queixas individuais, tendo o juiz sido obrigado a agrupá-las: cada acusador particular representa agora um mínimo de 54 vítimas.
Em janeiro de 2019, as buscas a sete imóveis da família Morchón levaram à apreensão de 982.815 euros em dinheiro vivo, distribuídos por nove sacos de plástico. As provas são sólidas. A sentença, ainda por escrever.