quarta-feira, 13 mai. 2026

Secretário de Defesa dos EUA volta a inspirar-se em Tarantino e 'abençoa' guerra contra Irão com icónico monólogo de Pulp Fiction

Pete Hegseth usou um texto que ecoa o célebre monólogo de Samuel L. Jackson no filme de Tarantino para abençoar militares em combate. Pela segunda vez num mês.
Secretário de Defesa dos EUA volta a inspirar-se em Tarantino e 'abençoa' guerra contra Irão com icónico monólogo de Pulp Fiction

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, voltou a presidir a um culto religioso no Pentágono na quarta-feira, 15 de abril, e escolheu uma oração que os leitores de Quentin Tarantino reconhecerão de imediato: um texto que espelha o monólogo violento de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction, retirado de uma versão livre do versículo bíblico Ezequiel 25:17.

A 'oração', intitulada "CSAR 2517" (acrónimo de Combat Search and Rescue), pede "grande vingança e fúria irada" sobre os inimigos e foi apresentada por Hegseth como uma bênção para as operações militares americanas contra o Irão. "Há quinze minutos estava a falar de bloqueios com o Almirante Cooper, e agora vamos estudar a palavra do Senhor", disse. "Que o que discutimos e adoramos hoje informe o resto do nosso dia e a forma como nos conduzimos, seja o que for que estejamos a fazer".

Não foi a primeira vez. Em março, Hegseth já tinha presidido a uma cerimónia semelhante no Pentágono, onde rezou por "violência de acção avassaladora" contra os que "não merecem misericórdia" e pediu que "almas ímpias sejam entregues à danação eterna". Na altura, apresentou a oração como uma bênção directa para a campanha militar americana no Médio Oriente.

A ligação ao filme de Tarantino não foi mencionada por Hegseth. Em Pulp Fiction, a personagem Jules Winnfield, interpretada por Samuel L. Jackson, recita uma versão dramatizada e adulterada do mesmo versículo antes de executar um homem desarmado, numa das cenas mais icónicas do cinema americano dos anos 90. O texto lido no Pentágono é, palavra por palavra, muito próximo dessa versão cinematográfica, com pequenas adaptações para o contexto militar.

A prática tem gerado reacções jurídicas. A organização Americans United for Separation of Church and State apresentou acções judiciais contra o Departamento de Defesa e o Departamento do Trabalho por realizarem cultos religiosos em contexto governamental. John E. Jones III, antigo juiz federal nomeado por George W. Bush e actual presidente do Dickinson College, afirmou esta semana que os cultos de Hegseth parecem violar a cláusula de separação entre Igreja e Estado prevista na Primeira Emenda da Constituição americana.