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Aí está a ironia, esse destino regurgitado, que parece apontar para a raiz que dá estrutura a esta terra, esse inferno sob as palavras e sob o mundo que , com o passar dos anos, arrefece no nosso sangue. Vejamos a morte de Marjane Satrapi, como se deixa ler essa última cena: num quarto em Paris, sob o peso silencioso da burocracia que regista as nossas partidas. E se ela sempre repudiou a redução do indivíduo a um mero dado ou a um símbolo, sucumbiu a essa última e derradeira abstração. Morreu aos 56 anos, de tristeza, segundo se lia nos necrológios, um ano após a perda de Mattias Ripa, o marido, o seu cúmplice e amante, que traduzira para inglês a força das memórias que ela soube cultivar para lá dessa canção rançosa que tantas vezes não se distingue já de um veneno lento dos dias.
A autora de Persépolis não era uma mulher de meios-termos. Sem pregar, aquela vida desenhada a traços grossos, a preto e branco, era um modo de se negar ao abatimento. Não se afogava em moralismos, nem tinha tantas certezas, mas naqueles traços havia uma firmeza que escapava a essas narrativas de vitimização, ao lado sacrificial dos que ficam de castigo de modo a confirmar todos os preconceitos ocidentais. «Alguém que não tem humor é parvo, acabou», disse numa entrevista ao Público, em 2008. «Só um parvo acha que a vida é infinita. É preciso ser inteligente para perceber que a vida já é penosa, que é muito curta, portanto se ainda por cima não nos rimos, é a merda. (...) O humor é o mais alto grau de compreensão de outra pessoa. Ao rirmos com alguém, compreendemos o seu espírito.» Havia nela uma lucidez quase cruel, essa que a levou a recusar a Legião de Honra francesa no início de 2025. Não por falsa modéstia, que detestava, mas por uma repugnância visceral pela hipocrisia política. Como poderia aceitar uma medalha de um governo que fechava as portas aos jovens iranianos enquanto permitia que os filhos dos oligarcas do regime passeassem os seus luxos por Saint-Tropez?
Em 1969, em Rasht, à beira do Mar Cáspio, chegou ao mundo para, menos de um mês depois, se ver mergulhada na agitação de Teerão. Filha de marxistas de classe média alta, cresceu a ouvir o eco das promessas quebradas. Viu o Xá cair e a esperança acender-se fugazmente para, logo depois, ser esmagada sob o peso do fundamentalismo islâmico. Aos nove anos, a revolução mudou-lhe o mundo. Aos 14, o exílio impôs-lhe uma maturidade brutal. A solidão austríaca, o frio entranhado nos ossos, o ter vivido nas ruas, uma pneumonia que quase a levou. E depois, um regresso doloroso ao seu país, onde viria a ser acometida de uma depressão asfixiante, que a obrigou a uma definitiva fuga para Paris.
Persépolis conseguiu aquilo que, hoje, tão poucas obras artísticas em qualquer género conseguem: provocou um estrondo sísmico. Não por oferecer uma denúncia gritante ou uma tese política estruturada, mas precisamente por se recusar a isso. Era a história de uma miúda, Marji, que queria ser profeta porque a avó tinha dores nos joelhos e a criada não comia à mesa com a família. Satrapi despiu o Irão do seu exotismo orientalista, mostrando como, por trás dos véus e das barbas, havia adolescentes a comprar cassetes de Michael Jackson no mercado negro, mães a exigir excelência, famílias a jantar na sala enquanto as bombas caíam lá fora, rasgando o céu nocturno.
«O que as pessoas dizem é: ‘Não fazíamos ideia de que era assim’», observou ela, na já referida entrevista. «Isto quer dizer apenas uma coisa: ‘Não sabíamos que havia seres humanos que viviam lá.’ Porque hoje, no Irão, estamos reduzidos a noções abstractas.» Satrapi lutou toda a vida contra essa abstração mortífera, recusando, ao mesmo tempo, tornar-se na porta-voz de uma nação, a socióloga de serviço, o género de vítima profissional que serve às campanhas de sensibilização e justificação de toda a arrogância e superioridade ocidentais. Reservou-se um ângulo inapropriável, deslocando-se por meio de uma subjetividade feroz e que desarmava os críticos e confundia aqueles que procuravam usá-la como bandeira.
Havia nela uma tensão constante, uma infelicidade subjacente que ela transformava alquimicamente em arte. A depressão que a paralisou em Paris, nos seus vinte e poucos anos, quando sentia que não conseguia respirar, só foi quebrada quando caiu das escadas de uma ambulância e levou quatro pontos na cabeça. «Isso tirou-me da depressão, na verdade», contou. «Porque tive tanta dor ali que a minha respiração voltou e decidi: ‘Agora tens de fazer alguma coisa.’ E então escrevi Persépolis.»
Detestava o termo ‘novela gráfica’. Achava-o uma invenção burguesa para quem tinha vergonha de admitir que lia banda desenhada. A sua estética era punk, o seu traço tinha tanto carácter devido à recusa da perfeição. Quando adaptou Persépolis ao cinema, exigiu que a animação fosse feita à mão, para preservar «o tremor na linha», pressentindo que era nessa imperfeição tátil que residia essa humanidade hoje tão cercada, copiada, ameaçada.
Nunca pode deixar de sentir uma gravidade onerosa na relação com o Irão, uma melancolia devastadora. Não lá voltara desde o ano 2000, tendo certo que o regresso poderia ser fatal. Mas a ligação manteve-se. «Não importa o quanto eu esteja apaixonada por Paris e pela sua beleza indescritível», escreveu. «Teerão, com toda a sua fealdade, será aos meus olhos para sempre a ‘noiva’ de todas as cidades do mundo.»