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«A monarquia limitada», escrevia o filósofo britânico Roger Scruton, «é a forma de governo certa para o Irão, que só pode ser salvo pela restauração do legítimo sucessor do Xá». Este resultado «estaria nos interesses não apenas do povo iraniano, mas também do Ocidente». Quarenta e sete anos após a revolução que retirou o Xá do poder, instaurando uma República Islâmica sob o controlo, espiritual e factual, dos aiatolas, parece estar aberta uma brecha para o regresso do regime monárquico na região da Pérsia.
O legítimo sucessor do Xá Mohammad Reza Pahlavi, que faleceu no Egito em 1980, é Reza Pahlavi, o príncipe herdeiro. Exilado nos Estados Unidos desde a revolução de 79, tem-se apresentado como a mais viável solução para governar um Irão pós-teocrático, e os últimos desenvolvimentos no país, com milhares a saírem às ruas em protesto contra o regime vigente que tem feito os possíveis para os reprimir, têm galvanizado as suas pretensões.
Nascido em Teerão há pouco mais de sessenta e cinco anos, o herdeiro do Xá saiu do país em 1978, com dezassete anos, para integrar os treinos da Força Aérea norte-americana, que acabou por completar. Nunca mais regressou. De acordo com as informações publicadas no seu website oficial (rezapahlavi.org), Reza Pahlavi licenciou-se em Ciência Política pela Universidade do Sul da Califórnia. Nos primeiros anos da teocracia islâmica, o país mergulhou num longo e sangrento conflito com o Iraque, comandado pelo sunita Saddam Hussein. E, independentemente da sua condição de figura principal do antigo regime, Palavi «como piloto de caças experiente, ofereceu-se para servir as forças armadas do seu país como piloto durante a Guerra Irão-Iraque». Não obstante, o seu desejo de servir «foi recusado pelo regime clerical», afirma a sua página pessoal.
Uma luta constante
O conformismo perante a realidade de não regressar ao trono pode parecer uma atitude natural para um herdeiro exilado. Mas não para Pahlavi. O seu relato, encontrado no website já citado, é o de que «[a]pesar de ser forçado a viver no exílio, o compromisso e o dever patriótico de Reza Pahlavi para com o Irão permanecem». Isto porque, acrescenta, «por mais de quatro décadas, Reza Pahlavi tem sido um líder e defensor dos princípios de liberdade, democracia e direitos humanos para os seus compatriotas. Ele mantém contacto constante com os seus compatriotas e grupos da oposição, tanto dentro como fora do país». Para além disto, «Pahlavi viaja pelo mundo encontrando-se com chefes de Estado, legisladores, decisores políticos, grupos de interesse e grupos de estudantes, falando sobre a situação difícil dos iranianos sob o regime islâmico no Irão». O príncipe herdeiro não só «apela ao estabelecimento de uma democracia secular no Irão», como também, e talvez mais importante, a uma «mudança de regime através da desobediência civil não violenta e a um referendo livre e aberto sobre um novo governo do Irão».
E, para além das ações diplomáticas, o príncipe herdeiro também já deixou no papel a sua visão do país, criticando não só o presente, mas deixando pistas de como vislumbra o futuro. Em 2000, publicou o livro Gozashteh va Ayandeh (Passado e Futuro, em português); dois anos mais tarde, escreveu Winds of Change: The Future of Democracy in Iran; por fim, em 2009, lançou o Iran: The Deciding Hour.
Em busca de um trono perdido
Os últimos dois anos e meio têm sido críticos para o Irão, com a política externa a representar um papel fundamental no descontentamento face ao regime. Como explicou na semana passada o historiador Niall Ferguson numa conversa com Coleman Hughes, «o regime está em apuros porque jogou mal a sua carta na política externa – não só apoiando o Hamas e a Jihad Islâmica Palestiniana para lançar os ataques de 7 de outubro contra Israel, mas também provando ser incapaz de infligir danos sérios a Israel com a sua ofensiva aérea direta». «Pior ainda», acrescenta Ferguson, «sofreu ataques bastante desastrosos na Guerra dos Doze Dias com Israel, na qual os israelitas descobriram que podiam passar pelos sistemas de defesa aérea do Irão». «Tudo culminou», conclui o historiador, «no verão passado com o bombardeamento de Fordo [localização da central nuclear] por bombardeiros furtivos B-2 dos EUA».
Após este ataque norte-americano, Pahlavi emitiu um comunicado importante: «A República Islâmica saqueou a riqueza do Irão não para servir o nosso povo, mas para gastar centenas de milhares de milhões em enriquecimento e num programa nuclear secreto, levando o Irão à beira da guerra. Este regime tentou enganar o mundo. Agora foi desmascarado. Deve ser responsabilizado». Para Pahlavi, a única solução passa por «ajudar o povo iraniano a derrubar o regime que mantém o Irão e o mundo reféns».
Mas a mensagem mais contundente chegou no passado domingo. Num comunicado oficial, o príncipe herdeiro disse, fazendo-se acompanhar, como de costume, da bandeira do Leão e do Sol e após acusar o regime dos aiatolas de ter assassinado mais de 12 mil manifestantes em apenas 48 horas, que a batalha que se coloca hoje ao país «não é entre reforma e revolução». É, isso sim, entre «ocupação e libertação». «O povo iraniano já escolheu o seu lado. (…) Não estão apenas a rejeitar este regime, estão a exigir um novo caminho a seguir». «Regressarei ao Irão», atirou no final da sua intervenção, concluindo que a «história honrará» os que apoiaram os iranianos nesta luta.
A grande questão que agora se coloca é a seguinte: consegue Pahlavi reunir o apoio suficiente junto do povo iraniano? Têm sido várias as manifestações de apoio para com o herdeiro do Xá, que não deixa de as partilhar nas redes sociais, mas a dúvida continua a pairar. E o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, ao que tudo indica, não atacará Terrão, também já o disse. «Ele parece muito simpático, mas não sei como se sairia no seu próprio país». «Não sei se o seu país aceitaria a sua liderança, mas se aceitasse, por mim tudo bem», concluiu Trump.
O crack in the concrete está aí e Pahlavi parece determinado em conquistar o trono que seu pai perdeu em 1979. O seu sucesso ou fracasso dependerá da resiliência interna e externa da República Islâmica e, na eventualidade de essa primeira barreira ter sido superada, o regresso da monarquia ao país estará em grande parte nas mãos do seu próprio povo.