A música como resistência: revolta contra ICE marca discursos dos Grammys

Numa noite em que a música e a política caminharam lado a lado, os Grammys voltaram a mostrar que, para muitos artistas, o palco é também um espaço de resistência e intervenção social.

A cerimónia dos Grammy Awards voltou a provar que a música continua a ser um palco privilegiado para a intervenção política. Na gala realizada na noite passada, vários artistas usaram os seus discursos de agradecimento para denunciar as políticas migratórias dos Estados Unidos e defender os direitos dos imigrantes, com críticas diretas à agência federal de imigração, conhecida pela sigla "ICE".

Um dos momentos mais marcantes da noite foi protagonizado por Bad Bunny, que subiu ao palco para receber o prémio de Melhor Álbum de Música Urbana. O cantor porto-riquenho, cujo nome verdadeiro é Benito Ocasio, iniciou o discurso com uma declaração contundente contra o ICE, arrancando uma forte ovação da plateia. "Antes de agradecer a Deus, eu vou dizer, ICE fora. Nós não somos selvagens, não somos animais, somos humanos e somos americanos", afirmou.

Ao longo da sua intervenção, o artista apelou à empatia e ao combate ao ódio através do amor, sublinhando que responder à violência com mais ódio apenas agrava os conflitos. Para Bad Bunny, a verdadeira resistência passa por proteger as comunidades e as famílias, mantendo uma postura firme, mas guiada pelo respeito e pela solidariedade. Neste discurso, Bad Bunny não sabia ainda que iria fazer história, ao ter o primeiro álbum espanhol a ganhar o prémio de Melhor Álbum do Ano, com "Debí Tirar Más Fotos".

As declarações surgem a poucos dias de mais um momento marcante na carreira do músico: a sua atuação no Super Bowl, onde será o primeiro artista latino e de língua espanhola a liderar sozinho o espetáculo do intervalo. A escolha já foi alvo de críticas por parte do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou a decisão como "negativa" e acusou os artistas envolvidos de "promoverem divisões".

A postura crítica de Bad Bunny não é nova. No ano passado, o cantor optou por não incluir os Estados Unidos na sua digressão mundial, alegando receios relacionados com possíveis ações do ICE junto aos concertos, uma preocupação que, segundo revelou, foi amplamente debatida pela sua equipa.

O tema da imigração esteve presente em vários outros discursos da noite. Billie Eilish, vencedora do prémio de Canção do Ano com a música "WILDFLOWER", dedicou toda a sua intervenção à defesa dos imigrantes. "Ninguém é ilegal em terras roubadas. F**k ICE", disse, incentivando artistas e fãs a continuarem a manifestar-se. A cantora reconheceu a dificuldade do momento político atual, mas reforçou a importância do protesto e da participação cívica.

Também Olivia Dean, distinguida como Artista Revelação, abordou o assunto de forma mais subtil, lembrando as suas origens familiares enquanto neta de um imigrante. "Estou aqui em cima como neta de um imigrante, sou um produto de coragem e eu acho que essas pessoas merecem ser celebradas", afirmou. No seu discurso, destacou a coragem das comunidades migrantes e afirmou que a sociedade só existe graças à contribuição mútua de todos.

Já SZA, ao receber o prémio de Gravação do Ano pela colaboração com Kendrick Lamar, deixou uma mensagem de esperança ao público. ""Por favor, não desesperem. Eu sei que este é um momento assustador. Podemos seguir em frente — precisamos uns dos outros. Não somos governados pelo governo; somos governados por Deus", sublinhou.

Numa noite em que a música e a política caminharam lado a lado, os Grammys voltaram a mostrar que, para muitos artistas, o palco é também um espaço de resistência e intervenção social.