Um professor britânico foi condenado a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional pelo homicídio do filho adotivo de 13 meses, num caso que está a provocar forte comoção no Reino Unido e a levantar questões sobre o funcionamento do sistema de proteção de menores.
Jamie Varley, de 37 anos, foi sentenciado esta quinta-feira pelo Tribunal da Coroa de Preston, depois de ter sido considerado culpado da morte de Preston Davey, um bebé que tinha sido adotado apenas quatro meses antes pelo arguido e pelo seu companheiro, John McGowan-Fazakerley, de 32 anos.
Na leitura da sentença, o juiz considerou que a criança foi sujeita a "abusos incessantes" e classificou os crimes como estando entre os mais graves previstos pela justiça britânica.
Segundo a acusação, Preston sofreu maus-tratos físicos, abusos sexuais e negligência durante o período em que viveu com o casal. A investigação concluiu que o bebé apresentava dezenas de lesões traumáticas antes de morrer, em julho de 2023.
Além do homicídio, Jamie Varley foi condenado por vários crimes, incluindo agressão sexual de uma criança, maus-tratos infantis e produção e partilha de imagens de abuso sexual de menores.
Já John McGowan-Fazakerley foi condenado a 25 anos de prisão por permitir a morte da criança, bem como por outros crimes relacionados com maus-tratos e agressão sexual.
Criança esteve várias vezes sob observação
A investigação revelou que Preston foi levado por três vezes ao hospital nos meses anteriores à sua morte e esteve em contacto com vários profissionais, entre médicos, visitantes de saúde e assistentes sociais.
O bebé tinha sido retirado à mãe biológica por decisão judicial e colocado inicialmente numa família de acolhimento, antes de ser entregue ao casal em abril de 2023, após estes terem sido aprovados como candidatos à adoção.
Durante o julgamento, a família de acolhimento afirmou que começou a suspeitar de que algo não estava bem cerca de um mês depois da criança passar a viver com os dois homens.
Segundo a acusação, Jamie Varley chegou mesmo a confessar a um colega de trabalho que tinha "pensamentos sombrios" de sufocar ou afogar o bebé.
O juiz considerou ainda que a profissão do arguido terá contribuído para transmitir confiança aos profissionais envolvidos no acompanhamento da criança.
"A sua formação profissional ajudou a tranquilizar assistentes sociais e profissionais de saúde de que tudo estava bem, quando claramente não estava", afirmou.
Governo anuncia investigação
Após a sentença, a comissária britânica para a Infância, Rachel de Souza, classificou o caso como uma "falha do Estado e do sistema de proteção de menores", defendendo uma investigação aprofundada para apurar se a morte da criança poderia ter sido evitada.
Também o Governo britânico anunciou a abertura de averiguações independentes para avaliar a atuação das entidades responsáveis pelo processo de adoção e pelo acompanhamento da criança.
A polícia de Lancashire descreveu Jamie Varley como um "indivíduo maléfico e monstruoso" que abusou "sexual, física e mentalmente de um bebé vulnerável". O inspetor-chefe responsável pela investigação afirmou tratar-se de um dos casos mais perturbadores alguma vez enfrentados pela unidade de homicídios da força policial.
Entretanto, Sarah Davey, mãe biológica de Preston, divulgou uma declaração emotiva na qual recordou o momento em que o filho lhe foi retirado por decisão judicial.
"Eu não tive escolha nessa decisão. Tentei encontrar algum conforto ao acreditar que ele estaria seguro, amado e protegido. Todos os dias vivo com a dor inimaginável de me perguntar pelo que ele passou", escreveu, acrescentando que esses pensamentos "a acompanham todos os dias" e que carregará esse sofrimento "para o resto da vida".