A justiça britânica condenou esta quinta-feira dois cidadãos anglo-chineses a penas de oito e dez anos de prisão por prestarem apoio aos serviços de informações da China e de Hong Kong em operações de vigilância contra ativistas pró-democracia e políticos britânicos.
A sentença foi proferida no Tribunal Criminal Central de Londres pela juíza Bobbie Cheema-Grubb, colocando um ponto final num julgamento que decorreu ao longo de vários meses.
Bill Yuen, de 66 anos, foi condenado a oito anos de prisão, enquanto Peter Wai, de 41 anos, recebeu uma sentença de dez anos.
Os dois homens tinham sido considerados culpados no início de maio por conduzirem operações de vigilância em nome das autoridades de Hong Kong, região administrativa especial da China.
Bill Yuen é um antigo agente da polícia de Hong Kong e trabalhava no gabinete oficial de representação comercial do Governo de Hong Kong em Londres. Já Peter Wai era agente da Polícia da City de Londres e desempenhava também funções nos serviços de controlo de fronteiras do Reino Unido.
Durante o julgamento, ficou provado que Wai recolhia informações sobre diversos alvos sob instruções de Yuen, que, por sua vez, recebia orientações das autoridades de Hong Kong. Entre os visados estavam ativistas pró-democracia residentes no Reino Unido e figuras políticas britânicas, incluindo o deputado conservador Iain Duncan Smith, um conhecido crítico do Governo chinês.
Tensão crescente entre Pequim e Londres
O caso surge num contexto de crescente tensão entre Londres e Pequim desde a imposição, em 2020, da Lei de Segurança Nacional em Hong Kong. Desde então, o Reino Unido acolheu dezenas de milhares de residentes do território, incluindo vários ativistas pró-democracia procurados pelas autoridades chinesas.
Após a detenção dos dois homens, em 2024, o então Governo conservador convocou o embaixador da China em Londres, classificando as alegadas atividades como "ações inaceitáveis". Já o atual executivo trabalhista, liderado por Keir Starmer, voltou a chamar o diplomata chinês no início de maio, depois da condenação dos arguidos, para protestar contra aquilo que considerou ser "uma violação da soberania" britânica.
Durante todo o processo, Bill Yuen e Peter Wai negaram as acusações. A embaixada chinesa no Reino Unido rejeitou igualmente as alegações, classificando o caso, em 2024, como resultado de "manobras políticas antichinesas".
Para Luke de Pulford, diretor-executivo da organização não-governamental Aliança Interparlamentar sobre a China, a decisão representa "um momento histórico para o Reino Unido".
"Há anos que dissidentes e especialistas alertam para operações de interferência de Pequim estarem a agir de forma descontrolada no Reino Unido", escreveu nas redes sociais, acrescentando que a sentença demonstra que quem conduzir "operações secretas hostis" em território britânico enfrentará consequências judiciais.