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O caso Epstein tem-se tornado cada vez mais mediático, nomeadamente depois da última divulgação de ficheiros que colocou em público mais de 3 milhões de fotos e e-mails entre o criminoso sexual e outras figuras de relevo.
Quem foi Jeffrey Epstein?
Nascido a 20 de janeiro de 1953, em Brooklyn, Nova Iorque, Jeffrey Epstein começou por ensinar física e matemática aos 21 anos na Dalton School, em Manhattan. Depois disso, através de conhecimentos familiares, ingressou no banco de investimento Bear Stearns. No entanto, acabou por ter de sair após uma infração regulatória ligada ao seu comportamento.
A partir daí, Epstein decidiu criar a sua própria empresa de consultoria e gestão financeira, com foco em clientes de classe muito alta - foi daqui que veio a sua fortuna. Com essa riqueza, estabeleceu ligações com figuras muito importantes, nomeadamente ligadas à política e realeza (que são várias vezes referidas nos ficheiros).
Em 1991, conheceu Ghislaine Maxwell, filha do magnata britânico Robert Maxwell, que ficou conhecida como a sua companheira (e cúmplice).
Onde era a famosa ilha de Epstein?
A ilha privada de Epstein, apenas acessível via barco ou helicóptero, é em Little Saint James, nas Ilhas Virgens dos Estados Unidos. Em 1998, Jeffrey Epstein comprou-a por cerca de oito milhões de dólares (quase sete milhões de euros). Documentos como fotografias e registos de viagens confirmam que a ilha foi um ponto central nas atividades ilegais do criminoso.
Em 2016, o banqueiro adquiriu uma outra ilha ao lado da que já tinha: a ilha Great Saint James, de maiores dimensões.
Quatro anos após a sua morte, em 2023, ambas as ilhas foram vendidas ao investidor Stephen Deckoff por cerca de 60 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de euros).
Para além destas ilhas, Epstein detinha vários imóveis espalhados pelo mundo. Quando morreu, em 2019, o seu património imobiliário era avaliado em cerca de 180 milhões de dólares (cerca de 151 milhões de euros).
Quais são os crimes ligados a Epstein?
Toda a investigação começou em 2005. Na altura, a polícia de Palm Beach recebeu a primeira denúncia relacionada com o banqueiro, vinda dos pais de uma jovem de 14 anos, que o acusavam de abusos sexuais contra a filha.
Em julho de 2006, o FBI abriu um inquérito onde identificou pelo menos mais 36 menores que terão também sido vítimas de abusos sexuais.
Já em 2007, os procuradores organizaram uma acusação com cerca de 60 crimes. No entanto, o processo não avançou devido à assinatura, em setembro do mesmo ano, de um acordo de não acusação pelo então procurador Alexandre Acosta, que garantiu imunidade não só a Epstein como a alegados cúmplices.
No ano seguinte, em 2008, Epstein declarou-se, enfim, culpado, mas de apenas duas acusações ao nível estadual e num acordo sigiloso. As acusações em causa estavam relacionadas com solicitação de prostituição, incluindo envolvendo menores. Nessa altura foi condenado a 18 meses numa prisão de segurança mínima, tendo autorização diária para saídas por motivos de trabalho.
Em 2009 acabou por ser libertado, depois de ter cumprido pouco mais de um ano de pena, ficando obrigado a registar-se como agressor sexual numa base de dados pública e oficial.
Mas os testemunhos de vítimas não pararam de aparecer. Durante a década seguinte, várias mulheres denunciaram publicamente que tinham sido vítimas de abuso sexual por parte do empresário. O caso voltou a ganhar principal destaque em 2018, após uma investigação do jornal Miami Herald, que trouxe uma nova análise (e mais testemunhos).
Em julho do ano seguinte, Epstein foi novamente detido em Nova Iorque por suspeitas de tráfico sexual. O agressor apenas pôde ser detido nesta altura porque os procuradores consideraram que o antigo acordo que lhe concedeu imunidade não se aplicava a este tipo de crimes. No entanto, o julgamento nunca chegou a acontecer, já que Epstein foi encontrado morto na prisão, a 10 de agosto de 2019. A morte foi dada como tendo sido suicídio.
O caso, no entanto, não ficou por aí: após a sua morte, as acusações prosseguem contra Ghislaine Maxwell, antiga companheira de Epstein. Em 2020, foi formalmente acusada de ajudar a recrutar menores para exploração sexual. Já em 2021, foi considerada culpada de crimes que incluíam tráfico sexual e conspiração e, por fim, em 2022, foi mesmo condenada a 20 anos de prisão.
Quem eram as pessoas mais próximas de Epstein?
Os documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam a rede complexa de ligações que facilitou as suas atividades criminosas.
Entre os nomes mais destacados está Ghislaine Maxwell - a sua companheira desde a década de 90. É apontada como peça central no "recrutamento de jovens".
Jean-Luc Brunel, agente de modelos financiado por Epstein é também referido. No circuito de crimes do banqueiro, Brunel participava na captação de vítimas. Chegou a ser detido em 2022, mas morreu na prisão em Paris antes de se concretizar o julgamento.
Além disso, a riqueza e património de Epstein não se geria sozinha - é aqui que entra Darren Indyke, advogado pessoal, e Richard Kahn, o contabilista. Estas são duas das pessoas que mais lucraram com o testamento de Epstein.
Lesley Groff, assistente pessoal do criminoso, também foi acusada de participar nos crimes. Segundo testemunhos de vítimas, ajudava a organizar viagens e contactos para que Epstein pudesse realizar os atos ilícitos. Os procuradores ponderaram acusá-la formalmente, mas nunca chegou a acontecer.
Entre os amigos de longa data destaca-se ainda Les Wexner, antigo CEO da empresa de lingerie e produtos de beleza Victoria's Secret. Durante vários anos foi um dos principais financiadores de Epstein.
No fundo, estas pessoas foram fundamentais para manter o funcionamento do esquema: garantiram proteção, recursos financeiros e capacidade logística.
Que figuras são referidas nos documentos de Epstein?
Entre membros da realeza, altas figuras do Governo e empreendedores de sucesso: pode encontrar-se de tudo nos ficheiros de Epstein.
Comecemos com a figura mais polémica: Donald Trump
O atual Presidente dos Estados Unidos da América é referido mais de quatro mil vezes nos ficheiros, mas continua a negar qualquer irregularidade na relação com o criminoso e garante ter cortado relações muito antes deste ser detido.
No entanto, as teorias continuam: além de continuarem a aparecer mais fotografias e e-mails que mostram proximidade entre os dois, a teoria de que a divulgação dos três milhões de ficheiros pelo Departamento de Justiça dos EUA serve apenas para mostrar que o Presidente nada tem a esconder neste caso continua a correr mundo. Ainda assim, faltam ainda mais três milhões de ficheiros e os que já foram divulgados estão maioritariamente censurados.
A polémica estende-se à realeza
O ex-príncipe Andrew Albert Christian Edward Mountbatten-Windsor, irmão mais novo do Rei Carlos III do Reino Unido, está também envolvido nos ficheiros.
Segundo consta nos documentos, Epstein terá facilitado o encontro do ex-príncipe com jovens mulheres - e estas podem ter sido vítimas de tráfico humano. Além disso, outro relatório fala da visita de uma bailarina de 17 anos à mansão de Epstein, após ter sido traficada, para se encontrar com André.
Mas não fica por aqui: um antigo agente de segurança do Palácio de Buckingham relatou à polícia que testemunhou várias visitas de jovens mulheres a André. O membro da realeza está a ser investigado, principalmente após um antigo responsável pela segurança da Casa Real britânica ter afirmado que este sabia dos crimes que Epstein cometia.
Foi esta quinta-feira detido por suspeitas de má conduta em cargos públicos.
E o caso de Epstein continua pela realeza. No caso da princesa herdeira da Noruega Mette-Marit, foram reveladas várias mensagens que terá trocado com o criminoso ao longo de mais de três anos. Nessas mensagens, caracterizava Epstein como “charmoso” e dizia que “Paris era uma ótima cidade para o adultério”. Além disso, há documentos que comprovam que a princesa esteve durante vários dias, em 2013, na propriedade de Epstein em Palm Beach, na Flórida. Mette-Marit já pediu várias vezes desculpa pela ligação que teve com Jeffrey Epstein, nomeadamente aos reis da Noruega.
Quem são as altas figuras do governo referidas?
O casal Clinton tem estado muito presente na polémica, nomeadamente depois de terem sido chamados a depor à porta fechada pela comissão. Bill Clinton foi fotografado várias vezes com Jeffrey Epstein entre 1990 e 2000. No entanto, garante que nunca soube de quaisquer crimes e que não tinha qualquer relação com o acusado "muito antes" de todas as revelações de crimes. Já a antiga candidata presidencial e secretária de Estado, Hillary Clinton, garante que o casal está a ser usado para “desviar atenções”, principalmente porque nunca conheceu Epstein (apenas a sua companheira).
Também o antigo e principal conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon, conspirou com Jeffrey Epstein, sendo referidas várias mensagens entre os dois onde planeavam “derrubar” o Papa Francisco. Entre 2018 e 2019, são várias as mensagens enviadas por Bannon, que procurou o banqueiro para “minar” o antigo pontífice, já após ter deixado a primeira administração Trump.
Peter Mandelson, antigo embaixador do Reino Unido nos EUA, demitiu-se do Partido Trabalhista do Reino Unido por ter iniciado uma primeira investigação após surgirem vários e-mails que mostraram que Mandelson partilhou com Epstein informação confidencial sobre os mercados financeiros durante a crise de 2008, quando detinha a pasta da economia. No governo de Starmer, a divulgação provocou ainda mais duas demissões: o chefe de gabinete e o diretor de comunicação.
Já em França, a investigação está sob o antigo ministro da Cultura, Jack Lang, e a filha mais velha por suspeitas de branqueamento de capital agravado por fraude fiscal. Entre os elementos analisados nos documentos estão referências a uma operação imobiliária em Marrocos e à utilização de estruturas empresariais em territórios considerados "paraísos fiscais". Além disso, o nome de Caroline Lang, a filha, estava referido no testamento de Epstein, no qual lhe eram prometidos cinco milhões de dólares.
Por fim, mas não menos referidos, os empreendedores de sucesso
O homem mais risco do mundo não escapou desta polémica. Elon Musk, CEO da Tesla, é referido em vários e-mails, por ter trocado mensagens com Epstein sobre as suas tão conhecidas festas. Numa das mensagens, Musk pergunta mesmo quando seria a “festa mais louca” na famosa ilha para se certificar de que estaria presente. Há ainda detalhes onde planeavam uma visita apenas de Elon Musk à ilha, mas que, ao que tudo indica, nunca chegou a acontecer.
Já Bill Gates, fundador da Microsoft, terá escondido da sua mulher uma doença sexualmente transmissível após ter tido relações sexuais com “jovens russas”. Numa das mensagens trocadas com uma conta que terá pertencido a Epstein, este diz que Bill Gates lhe pediu, “com lágrimas nos olhos”, para apagar os e-mails referentes à sua DST e ao pedido para lhe fornecer antibióticos.
Outros nomes incluem Larry Summers, antigo secretário do Tesouro do então Presidente dos EUA Bill Clinton, Casey Wasserman, presidente dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028; e Brett Ratner, realizador do novo documentário sobre a primeira-dama dos EUA, Melania Trump.
[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]