sexta-feira, 13 mar. 2026

Quem é Francesca Albanese? A relatora da ONU no centro de uma tempestade diplomática

França, Alemanha e outros países euroepeus pedem a sua demissão, enquanto mais de 100 artistas saem em sua defesa. Afinal, quem a apoia e porque se tornou tão polémica nos últimos dias.
Quem é Francesca Albanese? A relatora da ONU no centro de uma tempestade diplomática

Mais de uma centena de artistas internacionais manifestaram apoio público a Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos Ocupados, que enfrenta crescentes pressões políticas para abandonar o cargo.

Entre os signatários de uma carta aberta divulgada pelo movimento Artists for Palestine estão nomes como Mark Ruffalo, Javier Bardem, a Nobel da Literatura Annie Ernaux e a cantora britânica Annie Lennox.

No documento, os artistas expressam “apoio total a Francesca Albanese, uma defensora dos direitos humanos e, por isso, também do direito do povo palestiniano a existir”. E acrescentam: “Há infinitamente mais de nós, em todos os cantos da Terra, que queremos que a força deixe de ser a lei. Que sabemos verdadeiramente o que significa a palavra ‘lei’”.

Porque está Francesca Albanese envolvida em polémica?

A controvérsia intensificou-se após declarações feitas por Albanese num fórum internacional organizado pela Al Jazeera, onde afirmou que “nós, enquanto humanidade, temos um inimigo comum”.

Um vídeo manipulado, entretanto desmentido, sugeria que a relatora teria identificado Israel como esse “inimigo comum”. Mais tarde, Albanese esclareceu nas redes sociais que se referia “ao sistema que permitiu o genocídio na Palestina”.

Apesar da explicação, a pressão política manteve-se.

Quem está contra ela?

A França e a Alemanha lideram os apelos à sua saída.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, condenou as declarações como “escandalosas e inadmissíveis”, depois de um grupo de deputados franceses as ter classificado como “anti-semíticas”. Já o chefe da diplomacia alemã, Johann Wadephul, considerou a sua posição “insustentável”.

Para Paris e Berlim, as palavras da relatora ultrapassaram os limites da crítica política legítima.

Quem a defende?

Os apoiantes de Albanese falam em tentativa de silenciar vozes críticas da política israelita.

O escritor e produtor Frank Barat acusa vários governos ocidentais de hipocrisia: “Os Estados têm o dever de agir para prevenir genocídio, e têm falhado completamente”, afirmou. Segundo Barat, Albanese tornou-se alvo “porque expôs essa hipocrisia”.

Também a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Marta Hurtado, manifestou preocupação com os ataques pessoais: “Estamos preocupados que funcionários da ONU e especialistas independentes estejam cada vez mais sujeitos a ataques pessoais, ameaças e desinformação que desviam a atenção das graves questões de direitos humanos”.

E qual é a posição de António Guterres?

O secretário-geral da ONU, António Guterres, não se pronunciou directamente sobre os pedidos de demissão de Francesca Albanese. No entanto, o líder das Nações Unidas tem reiterado publicamente a necessidade de proteger a independência dos relatores especiais e especialistas mandatados pelo Conselho de Direitos Humanos.

Guterres tem insistido que os mecanismos independentes da ONU devem poder exercer funções “sem intimidação ou interferência política”, sublinhando repetidamente a importância do respeito pelo direito internacional humanitário e pela protecção de civis no conflito em Gaza.

A ausência de uma condenação formal à relatora é lida por alguns sectores como sinal de prudência institucional, enquanto outros defendem que o secretário-geral evita agravar uma tensão diplomática já elevada entre Estados-membros influentes.

O pano de fundo: Gaza e o direito internacional

Francesca Albanese tem sido uma das vozes mais críticas da actuação de Israel em Gaza, defendendo que os Estados têm obrigações claras ao abrigo do direito internacional para prevenir genocídio.

A guerra, que se intensificou após Outubro de 2023, continua a gerar forte divisão política e diplomática, tanto na Europa como nos Estados Unidos.